População em desespero
"Psiquicamente falando, as pessoas estão muito fixadas na fase oral. São muito narcísicas, voltadas só para si mesmas e para a própria aparência." O diagnóstico é feito pela doutora em psicologia clínica e coordenadora do curso de Psicologia da Unifil, Denise Hernandes Tinoco, para quem o processo de supervalorização da estética tem sido mais intenso no Brasil do que em outros países. "É como se todas as mulheres tivessem que se adequar ao mesmo padrão. Há uma ideia da beleza em série, não conseguimos mais enxergar e valorizar as diferenças entre as pessoas", observa a psicoterapeuta.
Segundo Denise, a mídia tem reforçado este comportamento nas pessoas, à medida em que promove uma valorização exacerbada do corpo, em detrimento de todo o resto. "Jung (Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço) dizia que ou o ser humano se torna sábio (no sentido de aprender a saborear a vida) ou fica desesperado. Parece que a nossa população, ao valorizar apenas a estética, está em desespero", argumenta. Para a psicóloga, uma garota de 15 anos que ainda está em crescimento e provavelmente ainda vai amamentar colocar próteses de silicone é sinal de desespero. "É como se ela só tivesse o corpo para conquistar alguém."
O mais grave, alerta Denise, é que os adolescentes estão submetendo-se a tantas intervenções cirúrgicas com a conivência dos pais. "São eles que autorizam estes procedimentos, quando deveriam impor mais limites. Os adolescentes estão em formação, não têm maturidade para tomar decisões sozinhos. É papel dos pais mostrar que há outros caminhos além da estética."
Denise Tinoco cita ainda uma teoria do filósofo Soren Kierkegard, de que as civilizações evoluem por meio de três estágios coletivos: estético, ético e religioso (que não está, necessariamente, ligado a alguma instituição). "Parece que estamos regredindo para o estágio em que apenas a estética importa, e não os valores humanos, que dão sentido à vida." (S.L.)





