'Política repressiva não freia aumento de usuários'
O professor Pedro Bodê, coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que as políticas de enfrentamento ao crack em todo o Brasil adotam táticas repressivas, influenciadas por governos de perfil conservador que os Estados Unidos tiveram nas últimas décadas.
''A questão do crack é resultado direto de um tipo de política, de guerra às drogas, exclusiva e eminentemente repressiva. Nós temos drogas cada vez mais pesadas, baratas e letais ocupando o lugar de outras. O Brasil em geral adota um tipo de política que não diminui o número de viciados, pelo contrário. São ações que utilizam quase 90% dos recursos para repressão e destinam o pouco que resta para prevenção, tratamento e alguma pesquisa'', critica.
''Temos que pensar em ações de curto, médio e longo prazos. No Paraná, assim como em todo o Brasil, há uma política exclusivamente repressiva. As exceções são algumas iniciativas, de comunidades terapêuticas e grupos religiosos, por exemplo'', cita Bodê, que qualifica a operação da PM na cracolândia de São Paulo como ''desastrada e inconsequente''.
''O crack não é um problema policial. É um problema social, de saúde pública, de educação. É uma questão apenas residualmente policial'', argumenta. ''Se não forem adotadas estratégias melhores, a situação vai piorar. Podemos esperar uma ampliação dessa realidade do crack.''
Bodê, que já visitou cracolândias em São Paulo e no Rio de Janeiro, aponta que os aglomerados de usuários da droga no Paraná são mais dispersos, o que facilitaria eventuais abordagens. ''Nessas cidades, a população é maior, o número de traficantes é maior. No Parolin (bairro de Curitiba), por exemplo, tem um pequeno agrupamento de viciados. Mas pequeno ou grande, é sempre uma cena deprimente'', diz o estudioso. (F.G.)





