POLÊMICA 'Cura gay' distancia religiosos e ativistas
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domingo, 05 de fevereiro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Uma nova polêmica ronda as discussões em torno do Projeto de Lei (PL) 122, em trâmite no Senado, que propõe a criminalização da homofobia. Para o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), pastores e padres que pregam a ''cura'' ou ''recuperação'' de homossexuais em programas de rádio e TV devem ser sancionados, com punição estabelecida por lei.
O assunto é tema de debates acalorados. Para os ativistas gays, a homossexualidade não é uma doença e, portanto, não necessita de cura, o que coloca a abordagem religiosa no rol dos preconceitos. Já os representantes das igrejas defendem tratar-se de um comportamento adquirido, que pode ser mudado com ajuda da fé.
O pastor Marcos de Lima, atualmente no comando do Espaço Cristão Inclusivo, em Londrina, viveu os dois lados dessa história. Casado com Mauro Aparecido Rodrigues desde setembro do ano passado, ele, que frequenta igreja evangélica desde a infância, se tornou ministro da mesma denominação na vida adulta. Conta que negou a própria orientação sexual até os 27 anos, por acreditar que o relacionamento com outros homens seria pecado. ''Eu sempre soube que era 'estranho', mas não conseguia aceitar que era homossexual'', comenta.
Até os 17 anos, fez orações e jejuns para se libertar do que acreditava ser uma ''possessão''. Prestes a atingir a maioridade, ele sentiu-se atraído - pela primeira e única vez na vida - por uma moça que viria a se tornar sua esposa. Com ela viveu até os 27 anos e teve dois filhos. ''Fiquei muito contente, por acreditar que Jesus tinha me libertado'', relata. A despeito da fé na ''cura'', ele reconhece que a vida conjugal era ruim para ambos os envolvidos.
Em um trabalho de evangelização, o religioso conheceu o homem que viria a ser seu primeiro namorado. Ao tentar evangelizá-lo, deu o primeiro beijo homossexual da vida e, naquele momento, afirmou a própria identidade sexual. ''Decidi me abrir com minha esposa, que foi muito companheira e compreensiva. Pedi a separação e a licença ministerial e fui viver com aquele homem, com quem fiquei por seis anos'', revela.
Lima acabou conhecendo Mauro, com quem vive há sete anos. A união entre os dois foi legalmente oficializada no ano passado. Os filhos de Lima moram com o casal e participam das atividades do Espaço Cristão Inclusivo, criado para acolher homossexuais em busca de um local onde possam exercer a fé cristã sem abrir mão da identidade sexual.
Em Londrina, ele atende presencialmente 30 pessoas, mas mantém contato com outras 600 pela internet. ''A maioria são evangélicos homossexuais em conflito'', diz ele, acrescentando que essas pessoas, assim como ele, não querem abrir mão da fé cristã apesar da identidade homossexual. O conforto viria através da própria Bíblia, que, na interpretação dele, não condena a homossexualidade. ''Deus, na sua onisciência, sabe que cada fecundação vai gerar um hétero ou um homossexual.''
Sobre a necessidade de punição aos religiosos que pregam a ''cura'' gay, Lima defende a iniciativa. ''Amar e respeitar alguém não é doença e não precisa ser curada'', acredita. A postura condenatória, para ele, é questão de homofobia. ''Ninguém é obrigado a gostar de gays, mas todos são obrigados a respeitar a diversidade.''


