Pesquisa de campo ouviu 1.232 famílias
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
De Londrina 
A pesquisa Resgate da Cidadania, uma Questão de Direito foi realizada por amostragem nos bairros mais representativos em termos de tamanho, de proximidade com o centro da cidade e com a população mais carente. Durante 15 meses, os pesquisadores visitaram a Vila Marízia; os jardim União da Vitória, 1 ao 6; jardins Perobal 1 e 2, Franciscato, São Marcos, São Jorge, Olímpico, João Turquino, Maracanã, Santa Inês, Marabá e Monte Cristo e entrevistaram 1.232 famílias, num total de 5.354 pessoas, sendo que 2.649 são mulheres e 2.705, homens.
Do universo pesquisado, 2.130 pessoas estão na faixa de 0 a 14 anos; 1.127, de 15 a 25 anos; 1.921, de 26 a 60 anos; e 176, acima de 60 anos. Segundo o coordenador da pesquisa, professor-doutor João Batista Filho, as faixas de 0 a 14 e de 15 a 25 anos, representam mais de 60% da população. Isto é um fato importante de se ter em mente. São crianças em situação de risco, sem escola, sem o trabalho, sem perspectivas, enfim f. da vida. Mas que não aceitam esta situação. Assim, como outras crianças e adolescentes, eles querem ter uma roupinha, um tênis, um boné legal, afirma.
Segundo ele, isso pode ser compravado em conversas que têm com moradores destes bairros. Tem uma menina em um deles, que não vou nomear, que aos 15 anos se intitula dama de companhia. Uma menina bonita, que por R$ 15 passa a noite com qualquer um. Esta menina está no último estágio da Aids e já deve ter passado a doença para 30, 40, sei lá quantos garotos dali, diz. Em outro bairro, a prostituição infantil é tão disseminada que uma garota de 15 anos é considerada velha. Lá eles me falaram que agora o problema não é ter 15 anos, é ter 15 quilos, indigna-se.
Entre os jovens acima de 14 anos, na faixa etária de procurar o primeiro emprego, a falta de expectativa também é grande. Além de encontrar um mercado de trabalho saturado, sem vagas, eles enfrentam a discriminação por morar em um local como o João Turquino, São Jorge ou União da Vitória, bairros marcados pela violência, explica.
Outro dado assustador, segundo o coordenador, é o fato de que 92% dos entrevistados são nascidos em Londrina (32%) e região Norte do Estado (60%). Apenas 8% vieram de outros Estados. Isto é grave, é muito grave porque mostra que o Estado que se formou com esta mão-de-obra sugou tudo o que podia, explorou este sangue e o jogou na sarjeta, acusa.
O índíce de escolaridade entre os pesquisados também é baixo. Cerca de 93% são analfabetos, 1% tem primeiro grau e três ou quatro pessoas têm o 2º grau, número tão pequeno que não deu para sair do zero, aponta João Batista. Isto, segundo ele, repercute na qualificação profissional. Entre os pesquisados maiores de 14 anos, 1.355 estão desempregados. Entre os 1.697 que se dizem empregados, nenhum tem carteira assinada, 13º salário, férias, fundo de garantia ou qualquer outro direito trabalhista.
Eles trabalham na frente de trabalho da Prefeitura, como camelô, como jardineiro, vendendo vassouras na rua. Mas se consideram empregados, aponta. Dos que trabalham, 6% recebem menos de um salário, 91% até três salários, e 3%, mais de quatro salários.
A pesquisa também levantou o perfil da cesta básica consumida por essa população. A compra mensal é composta por arroz, feijão, sal, óleo, fubá, pão e leite, este não para todos os dias e só para os filhos pequenos. Carne e verduras mal aparecem nas mesas, diz. Segundo ele, como estas famílias não consomem as vitaminas, proteínas e sais minerais necessários, o resultado é um ciclo vicioso.
Pelas estatísticas oficiais, já existem cerca de 4,5 milhões de crianças imbecilizadas, que não conseguem fazer abstrações por falta de alimento adequado na primeira infância. Estas crianças, crescem num contexto de subnutrição e se tornam adultos depauperados acumulativamente. Vivem cansados, não conseguem acompanhar a escola. E são chamados de vagabundos, critica. (T.E.)


