Pesquisa avança no combate à enxaqueca
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sábado, 30 de junho de 2001
Da Redação e Agência Estado 
A assistente social M.G.O., 47 anos, de Londrina, convive com um problema que a atormenta pelo menos uma vez por semana há duas décadas: a enxaqueca. Quando a doença ataca, ela recorre a um medicamento que compra em farmácias, sem necessidade de receita médica, mas só depois de ingerir dois comprimidos e se recolher em um ambiente totalmente escuro, para tentar dormir por alguns minutos, M.G.O consegue se livrar da dor, que começa na altura da nuca, sobe à testa e acaba por atingir o estômago, provocando ânsia de vômito.
A profissional diz que já procurou ajuda médica, mas não obteve respostas para as causas que provocam a enxaqueca. Se depender da ciência, porém, M.G.O. poderá, finalmente, chegar a um diagnóstico e, sobretudo, a um tratamento que a deixe livre do problema.
No mês passado, pesquisadores holandeses anunciaram o que pode ser um importante passo para a cura e prevenção da enxaqueca. Segundo estudo apresentado no Congresso Mundial de Neurologia na Grã-Bretanha, o organismo torna-se vulnerável à doença por causa de alterações genéticas.
Essa suscetibilidade permite que fatores já associados à enxaqueca, como estresse, alimentos ou disfunção hormonal, acabem desencadeando o problema. A enxaqueca é uma doença multifatorial, mas com uma origem genética, diz o responsável pela pesquisa, o neurologista Michel Ferrari, da Universidade de Leiden, na Holanda.
O estudo foi baseado na identificação da anormalidade genética que leva a um tipo raro de enxaqueca que, de tão grave, pode paralisar um lado do corpo do doente. Nesse caso, os cientistas identificaram o problema em um único gene do cromossomo 19. Os estudos desse tipo específico da doença nos ensinaram muito sobre o mecanismo da enxaqueca no geral, afirma Ferrari.
Segundo ele, muitos outros genes estão envolvidos no processo de formação dos tipos comuns de enxaqueca. Um deles fica no cromossomo X. Como as mulheres têm dois cromossomos X, isso seria uma das causas de elas serem as mais afetadas pelo mal, diz o neurologista. Segundo dados divulgados no congresso, 18% de todas as mulheres do mundo sofrem de enxaqueca, enquanto a doença ataca apenas 6% dos homens.
Esse estudo vai ajudar a desenvolver tratamentos preventivos melhores, garante Ferrari, acrescentando que o que existe hoje são maneiras pouco efetivas de se tratar o doente. Um outro estudo revelado no congresso em Londres mostra que apenas 12,6% das pessoas que sofrem de enxaqueca recebem um tratamento correto. Muitos pacientes fazem automedicação e outros recebem remédios errados porque tiveram sua doença diagnosticada como uma dor de cabeça normal, explica o autor do estudo, Aleksandras Vilionskis, da Universidade de Kaunas, na Lituânia.
A enxaqueca é uma doença crônica caracterizada por fortes dores de cabeça que causam principalmente náusea, vômitos e aversão à luz. Estudos mostram que os doentes são impossibilitados de trabalhar durante 12 dias por ano por causa da enxaqueca. Os ataques duram cerca de 24 horas e frequentemente ocorrem de duas a três vezes por mês. Por muitos anos, pacientes de enxaqueca têm sofrido a humilhação de sentir que sua condição é apenas psicológica. Agora, os estudos estão mostrando pela primeira vez uma razão científica para a doença, diz a presidente da Associação de Enxaqueca da Irlanda, Audrey Craven.


