Pesquisa aponta ascensão social na periferia
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sábado, 02 de março de 2013
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
O caminhão de entregas de um grande magazine subindo a ladeira de terra onde o esgoto ainda corre na rua, em um bairro na periferia de Londrina, é o retrato de um Brasil que foi recentemente detectado pela pesquisa Datafavela, realizada pelo instituto Data Popular. De acordo com o levantamento, 65% dos moradores das favelas de capitais e regiões metropolitanas do País já pertencem à classe média.
O dado é reforçado por indicadores de consumo apontados pelo estudo: há 12 milhões de brasileiros morando em comunidades, que ganham R$ 56,1 bilhões por ano. Além disso, 52% desta população possui máquinas de lavar, 89% tem telefone celular e 40% tem microcomputador em casa.
A cena flagrada na periferia de Londrina, entretanto, denuncia que a alardeada ascensão à classe média acontece em meio a contrastes. A melhoria na infraestrutura urbana e a oferta de cultura, lazer, práticas esportivas e até mesmo serviços básicos como saúde e educação não acompanham, no mesmo ritmo, o aumento na renda da população.
''O Datafavela mostra que os moradores das favelas têm poder de consumo. A novidade é que, ao contrário do que acontece em outros exemplos de migração de classe social, essa população que aumentou a renda não quer sair do local onde mora'', explica Celso Athayde, um dos fundadores da Central Única de Favelas (Cufa), fundador da FHolding - grupo de 20 empresas que vai empreender, entre outras iniciativas, o primeiro shopping center em uma favela brasileira -, e responsável pela pesquisa.
Segundo ele, este cenário se explica porque, fora da periferia, essa nova classe média teria maior custo de vida, o que comprometeria o poder de compra. Aponta, também, que o resultado da pesquisa é válido para todas as regiões do Brasil, incluindo o interior dos Estados. ''A melhoria na renda é um fenômeno nacional'', enfatiza.
Athayde concorda que o incremento da renda - puxado, inclusive, pelo crescimento do comércio nas comunidades - não foi acompanhado pela melhoria da infraestrutura. ''O aumento do ganho das famílias não significa que o estado fez a sua parte'', critica. Defende, por outro lado, que o incentivo ao desenvolvimento está nas mãos, também, da iniciativa privada, que pode explorar o potencial desses consumidores. ''Quando criamos um shopping na favela, por exemplo, reconhecemos que aquela região tem poder de compra e precisa de lazer e entretenimento. Esse tipo de empreendimento acaba trazendo desenvolvimento. E quando desenvolvemos territórios, também desenvolvemos as pessoas que vivem nele'', pontua.
Londrina
Nas experiências de intervenções do poder público através dos programas de reurbanização de assentamentos em Londrina, a assistente Sandra Cordeiro, doutoranda do curso de pos-graduação em Serviço Social e Política Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), participou com pesquisa de avaliação pós-ocupação nos bairros Turquino e Maracanã (região oeste) e no Jardim Primavera (região norte).
Neste locais, ela avalia que houve melhoria nas condições de vida das famílias a partir da oferta de moradia, infraestrutura básica e equipamentos públicos e sociais. ''O aspecto da renda continuou sem alteração. O acesso dessas famílias a eletrodomésticos e outros bens não significa necessariamente que houve melhoria, pois continuam expostas a violência doméstica, exploração, uso de drogas ilícitas e outras condições adversas que trazem sofrimento'', analisa.
Por outro lado, a urbanização desses locais ofertou para seus moradores a condição de acesso à cidade, o que antes não era possível pela falta de infraestrutura. Sandra reforça que, como apontou Athayde, em Londrina os moradores das favelas também não querem deixar o local onde vivem. ''É muito mais do que um espaço de habitação, é o local onde essas famílias criam laços, convivem e constroem suas histórias''. diz.


