Dono de uma vitalidade admirável, Miyoshi Egashira, de 79 anos, é uma figura que, no mínimo, desperta curiosidade. Falador e risonho, conta as histórias do dia a dia com o mesmo entusiasmo que suas aventuras ao longo da vida, como a temporada na Amazônia, onde administrou uma plantação de guaraná. Todas guardadas na memória, como faz questão de frisar. "Nunca usei agenda para nada; fica tudo aqui na minha cabeça", diz. Para isso, exercita o corpo e a mente de várias maneiras. "Venho todos os dias caminhando para o escritório e sempre faço um trajeto diferente. Corpo sadio e mente sã", conta ele, completando que isso é importante para fazer o cérebro "pensar".

Até o ano passado, era o único tradutor juramentado da língua japonesa em toda região Norte do Paraná, língua que aprendeu sozinho no internato quando criança, mesmo tendo pais imigrantes. "Mas não me aposentei, não. As pessoas ainda precisam do meu trabalho até hoje, porque existem poucos profissionais na área", diz ele, que atua desde 1961 com tradução de documentos oficiais, mostrando o pequeno carimbo vermelho fabricado no Japão que dá a autenticidade ao seu trabalho.

Em seu escritório, por onde se olha, há objetos e livros de temas japoneses, enquanto uma música oriental suave completa o ambiente. "Está vendo aquele quadro ali? Meu pai foi homenageado com essa comenda pelo imperador do Japão, na época do Imin 70", mostra orgulhoso. E outros quadros com escritas em kanji, principalmente que foram presenteados, dividem o espaço entre os objetos antigos que ainda mantém e utiliza, como máquina de escrever e registradora. "O número de série de cada documento é registrado individualmente à máquina. Isso inibe a falsificação."

Oriundo de uma família numerosa de oito irmãos, morou durante muitos anos em um sítio na cidade de Rolândia com os pais. Mas, ainda pequeno, veio estudar em Londrina. "Desde novinho morei com outras pessoas. Primeiro em internato, depois em república, o que faz necessário adquirir muita disciplina desde cedo." Nessas casas, Egashira diz que havia uma espécie de diretoria que cuidava da manutenção do lugar. "Acho que foi nesse período que despertou minha facilidade com administração", resume.

Contudo, anos mais tarde, seria em Curitiba que iniciaria sua carreira, onde estudou Ciências Econômicas. "Se eu contar com tudo que já trabalhei vai demorar", brinca ele, que fez de tudo um pouco: foi desenhista e projetista em escritório de construção, tipógrafo, administrador e gerente de várias empresas até fundar sua própria instituição financeira, a Paranácrédito. Ainda tinha energia para dar aulas de língua japonesa e dedicar-se a vários projetos com a comunidade nipônica. Sendo assim, por trinta anos foi responsável pela Associação de Intercâmbio de Estudantes Brasil-Japão que, de acordo com ele, chegou a receber mais de 700 estudantes japoneses.

Ajudou, também, na fundação da Aliança Cultural Japonesa, onde há 25 anos é coordenador do curso de proficiência em japonês e por mais de 20 anos foi diretor da Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel). Porém, de todas as suas andanças, a que mais chama atenção é a de administrador na plantação de guaraná na Amazônia. "Tínhamos a intenção de exportar para o Japão, porque eles demonstraram interesse depois que ficaram sabendo que a fruta era fortificante, principalmente para os homens, entende?", diz, em tom cômico.

Apesar do investimento não ter tido progresso, segundo ele, por falta de mão de obra, inúmeras situações vividas no local ficaram guardadas na memória. "Quando ia para lá, aproveitava para entrar na floresta e tentar achar novas variedades de guaraná. Era emocionante entrar naquele mato. Não ganhei dinheiro, mas ganhei experiência", conta. Sem dúvidas, Egashira é um homem de várias histórias, impulsionado pelo desafio de ser um estrangeiro em sua terra natal. "Sofri muita discriminação na infância e adolescência. Mas não transformei a intolerância em ódio e, sim, em energia para vencer."

mockup