Perfil - Suplementos alimentares sob suspeita
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sábado, 04 de outubro de 2014
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Divulgados como solução mágica para ganhar um corpo definido por músculos, os suplementos alimentares à base de proteínas estão sob suspeita. Graças à ação de Félix Bonfim, um ex-atleta e comerciante de Londrina que atua neste mercado, o Senado está discutindo um projeto de lei que visa regulamentar a venda dos produtos.
Desconfiado da qualidade dos produtos que ele mesmo comercializava, Félix passou a investigar o conteúdo dos suplementos e descobriu que muitas marcas vendiam proteína mas enchiam as embalagens de carboidratos. Mergulhou de cabeça na cruzada para desmascarar alguns fabricantes e, hoje, planeja criar um selo de qualidade para atestar a honestidade das marcas.
O interesse pelos suplementos alimentares começou ainda na adolescência. Lutador de judô com várias conquistas na modalidade, ele recorria a esses produtos para melhorar a própria performance no esporte. "Como conhecia muitas lojas e também atletas, comecei a revender os produtos aos colegas e formei uma grande clientela. Foi por isso que abri, há seis anos, minha primeira loja", conta.
Conhecedor da realidade financeira da maioria dos atletas brasileiros, Félix passou a patrocinar alguns deles com a oferta de suplementação alimentar adequada. Acompanhando de perto a resposta dos lutadores à ingestão dos produtos, porém, passou a desconfiar da qualidade dos mesmos. Além de não entender como os fabricantes conseguiam vender a preços baixos um suplemento feito a partir de matéria-prima cara, ele ficou intrigado com a reação dos atletas aos complementos alimentares à base de proteína. "Eles reclamavam de flatulência, náuseas, diarreia, queda de rendimento e também não perdiam peso", recorda.
Foi por isso que, inicialmente, entrou em contato com os fabricantes e relatou as reclamações. "Me retornaram com laudos que comprovariam os rótulos, mas continuei desconfiado. Foi aí que decidi fazer as análises por conta própria".
Félix bancou com seu próprio dinheiro a avaliação do produto por um laboratório que considerou confiável. Foram enviadas quatro amostras de suplementos à base de proteínas: duas que oferecia aos atletas e duas marcas aleatórias disponíveis no mercado. "O resultado foi surpreendente, estava tudo adulterado", revela. Segundo ele, a Anvisa estabelece uma variação de até 20% de margem de erro na quantidade de proteína contida. Uma das marcas, porém, apresenta 90% de variação.
Depois de constatar a fraude, Félix entrou em contato com as empresas para tentar um ajustamento informal da qualidade dos produtos. Ignorado pelos fabricantes, partiu para denúncias nas redes sociais e, dada a grande repercussão gerada pelo assunto, viu a própria vida se transformar. De comerciante, passou a militante. E as denúncias, após ganharem atenção da mídia nacional, resultaram em um projeto de lei atualmente em fase de consulta pública no Senado que propõe a regulamentação da venda dos suplementos.
A escolha de levar até o fim as denúncias sobre o conteúdo inadequado de várias marcas que propagandeavam "whey protein" e embalavam carboidratos chegou a impor riscos ao comerciante. "Por quatro meses, fui obrigado andar com um segurança armado", revelou ele, que após negar uma tentativa de suborno para cessar as denúncias, foi ameaçado de ser "emburacado" pelo representante de um grupo de fabricantes. Além disso, ameaçaram sequestrar sua família. O conteúdo das denúncias e as ameças que vieram depois está documentando no depoimento de Félix ao Senado Federal durante audiência pública que discutiu a necessidade de regulamentar a comercialização destas mercadorias.
"Antes da audiência, ameaçaram matar minha mãe caso eu desse o nome das empresas", denuncia ele, que pediu proteção policial para a família e não se intimidou. "As empresas sabiam que seriam investigadas caso acontecesse alguma coisa ruim comigo e minha família", continua.
Um ano depois de levantar as primeiras suspeitas, ele questiona a demora na conclusão das investigações. E alerta que os órgãos responsáveis por fiscalizar o conteúdo das fórmulas, como Inmetro e Anvisa, "por falta de estrutura e recursos humanos", não conseguem dar conta.
Desde o ano passado, Félix já obteve 58 laudos de suplementos totalmente reprovados em relação ao que divulgavam os rótulos. Apesar das evidências, ele reforça que os órgãos fiscalizadores não conseguem fiscalizar todas as fábricas e, quando o fazem, suspendem apenas o lote aferido. "A Anvisa só retira o lote do mercado, mas não existe uma lei que puna os responsáveis. A impunidade incentiva os fabricantes a continuarem alterando os suplementos", lamenta.
O sucesso dos vídeos gravados por Félix para orientar os consumidores sobre os produtos disponíveis no mercado trouxe prestígio ao ex-atleta, que atualmente vive da exploração da própria imagem, através das gravações bancadas por patrocinadores. "Vendi minhas duas lojas mas coloquei uma cláusula no contrato que só podem vender suplementos com laudos que atestem a qualidade", diz.
Além disso, ele está em fase de criação de um "clube de compras" para garantir a lojistas o acesso a produtos com qualidade a preços mais acessíveis. Se prepara, também, para lançar um selo de certificação em parceria com um laboratório acreditado por Inmetro e Anvisa e por uma auditoria. "Criei um 'monstro' que está me engolindo. Se não tivesse desconfiado do conteúdo dos suplementos, continuaria sendo apenas um comerciante", diz.
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