Dona de um timbre raro, a cantora lírica Denise Sartori resiste na profissão, mesmo com o descaso e desconhecimento da música erudita e operística no Brasil. De um histórico de concertos em diversos palcos pelo mundo, ela, que já se apresentou para imensas plateias, se empenha em repassar a experiência adquirida e o conhecimento em fisiologia da voz.
Até chegar a esta posição, entretanto, foram anos de estrada com diversos caminhos. Nascida na capital paranaense, a menina de família tradicional curitibana ouvia os primeiros acordes em casa, pois o pai tocava violão e a mãe, piano, ainda que não fossem músicos profissionais. ‘‘Quando criança estudei vários instrumentos. Comecei com piano aos 6 anos, depois passei pelo violão e flauta; não me adaptei a nenhum.’’
Mas, ‘‘afinadinha’’, como se autodescreve, tinha facilidade para cantar e, assim, mostrava seu talento ainda bruto com as músicas populares – àquela época Roberto Carlos e Trio Ternura – junto com os pais. ‘‘Anos depois, já na adolescência, ouvia Queen; era fã do Fred Mercury’’, lembra. E foi o primeiro disco da banda, ‘‘Night of the Opera’’, que expandiu sua percepção sobre o universo musical, outros cantores e estilos. Mas o disco ‘‘Viagem ao centro da Terra’’(baseado na obra de Julio Verne), presente do irmão, foi um marco em sua vida.
Abria-se, portanto, um mundo de sonoridades, com agudos e vozes de coral, que a fazia repetir os trechos sozinha no intuito de reproduzir. Nesse período, se atrevia a cantar mais, já que acumulava participação em trabalhos de composição para músicas nas peças de teatro da escola e sonorização de desenhos animados. ‘‘Mas chegou a época do vestibular. E, apesar da família ter sido sempre envolvida na música, era preciso ser formado e ter uma ‘profissão’. Fui, então, estudar biologia’’, conta ela, que logo começou a trabalhar em uma farmácia de manipulação da família.
Talento e estudo
Não demorou para ingressar no coral da universidade e ser chamada para participar de uma ópera. ‘‘Larguei tudo: estágio, outra faculdade e só conclui a Biologia. Sabia que queria viver de música.’’ O próximo passo seria entrar na Faculdade Belas Artes. E assim, aconteceu. ‘‘De nada adianta ter talento e não estudar’’, diz.
Os convites para novos desafios e apresentações não paravam de chegar. Entrou como suplente de solista para uma ópera da Secretaria de Cultura, mas seu timbre diferente – Denise é considerada mezzo-soprano dramático coloratura – ajudou na conquista do papel.
A vida corrida de espetáculos, viagens e estudos a fizeram abandonar de vez a farmácia. Enquanto isso, sua voz ganhava ainda mais admiração, que foi ampliada por vencer um concurso nos Estados Unidos. ‘‘Foi um boom na minha carreira. Depois disso, as pessoas me paravam na rua para tirar foto e pedir autógrafo. O sucesso e a força da ópera eram tão grandes que os teatros ficavam lotados.’’
Mas, segundo Denise, a época de ouro da música erudita no Brasil não durou muito e praticamente acabou devido, sobretudo, à falta de investimentos ou patrocínios. ‘‘Não há vontade governamental em investir na divulgação da ópera. Já vi amigos tirando dinheiro do bolso para a montagem de uma peça. Só as orquestras, com raras exceções, mantêm uma programação’’, constata. Diante disso, resolveu fazer seu mestrado na Inglaterra, onde estudou a fisiologia vocal. ‘‘Fui deixando de cantar para me dedicar ao ensino’’, resume.

Cantando na novela
De volta, as apresentações já não faziam mais parte de sua rotina, mas o respeito pelo talento permanecia. ‘‘No ano 2000, recebi um convite para atuar como cantora de ópera numa novela da Globo. Foi o segundo boom da minha vida, mas de uma forma diferente. As pessoas me chamavam para cantar em casamento, eventos em geral’’, conta ela, sobre o folhetim Laços de Família, de Manoel Carlos, cuja participação estendeu o reconhecimento ao público, que a abordava na rua para elogiar sua voz.
Educadora do canto, Denise mantém a ideologia e vontade de propagar a boa música, ainda que não tenha a valorização que considera merecida. ‘‘Não existe glamour na ópera, especificamente no Brasil, mas muita dedicação, empenho e até algumas renúncias da vida pessoal. Além disso, não é barato: são aulas de línguas, técnica vocal. Os jovens talentosos estão se formando e indo embora do País. Infelizmente, tudo se resume ao sertanejo’’, analisa, explicando que as montagens atuais precisam ter foco voltado à realidade para se tornarem mais atrativas.
Denise Sartori é uma das coordenadoras da peça Mikado, a ser apresentada pelo Coral da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com estreia prevista em agosto.

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