Convencer um maestro festejado internacionalmente a andar alguns quarteirões conosco pelas ruas de Londrina à procura do melhor ângulo para as fotos. Parecia uma difícil missão para a equipe da FOLHA, na última quinta-feira, quase véspera da abertura do Festival de Londrina. Mas ao primeiro contato com o italiano Maurizio Colasanti, regente titular e diretor artístico da Orquestra da Universidade Estadual de Londrina (Osuel), soubemos que a proposta poderia ser feita.

Estávamos certos: com uma simplicidade surpreendente, ele aceitou o convite. A despeito dos muitos compromissos que teria nas próximas horas, Colasanti caminhou conosco e falou calmamente do desafio de recuperar os ânimos da Osuel e de transformá-la em algo melhor que encontrou, ao pisar pela primeira vez em Londrina, em 2011.

Quando a conheceu, a orquestra tentava sair da crise enfrentada no ano anterior, com direito a corte de funções gratificadas e ameaça de encerramento das atividades, iniciadas em 1986. Segundo o maestro, o que o fez aceitar o convite, além da possibilidade de um novo desafio, foi a empatia que sentiu por esta terra. "Londrina parece uma cidade europeia. Falta só um teatro", disse, remetendo à triste lembrança do incêndio do Teatro Ouro Verde, em fevereiro de 2012, pouco tempo depois do anúncio do seu nome à frente da Osuel. "Foi um choque, mas dali nasceu um desafio. Ficarmos sem o teatro foi importante no sentido de que, como na natureza, o fogo nos obrigou à renovação, ao nascimento de nova vida."

Atualmente é isso o que o maestro espera, que a cidade saiba reconstruir o seu teatro para viver a cultura como merece. "Londrina precisa de uma vida cultural maior. Quando assumi a Osuel, disse que uma orquestra é como uma praça, um teatro. É um ponto de referência para uma cidade. As pessoas precisam desta emoção em suas vidas." Enquanto aguarda a reconstrução do Ouro Verde, os ensaios são feitos do Cine Com-Tour. "O que é um problema, porque ele não foi feito para a música", confessa Colasanti.

Apesar das dificuldades, o maestro não esconde o orgulho pelos resultados conseguidos até aqui. "A orquestra é mais amada, mais considerada que antes. Acho importante também que conseguimos algo incrível, que nunca havia acontecido antes, que foi o convite para tocar no Teatro Guaíra, em Curitiba, em 17 de outubro. É um reconhecimento", comemora o maestro, que aos 45 anos consegue a proeza de trabalhar em vários países ao mesmo tempo.

Aqui, ele passa normalmente temporadas de 15 a 20 dias, e tudo é feito por meio de muito planejamento. "O problema, como toda orquestra no mundo, são os recursos, que nunca são suficientes." Quando está em Londrina, ele conta que tenta aperfeiçoar os detalhes, mas nunca perde o foco daquele que acredita ser o papel maior da música: "Mais do que ser bela, sua importância está em ensinar as pessoas a fazerem algo que normalmente não fazem, que é ouvir. Ficar quieto e simplesmente ouvir. Esta é a mensagem mais importante da música. Se todo mundo começasse a ouvir o outro, as razões do outro, tudo ficaria melhor", ensina.

Colasanti assumiu a Osuel há um ano e meio, e para ele este período foi de semear um bom trabalho. "Agora estamos começando a colher os frutos. Algumas orquestras precisam às vezes de 10 anos para conseguir colher alguma coisa. Os músicos da Osuel fizeram um trabalho maravilhoso, com muita seriedade. Todos estão entendendo o valor do estudo. E na música não importa apenas o talento, mas também o esforço, a energia de cada um."

Ele sabe do que está falando. Enquanto caminha, o regente conta que nunca foi apadrinhado por ninguém. Cresceu com o próprio suor. Talvez com um pouco de sorte também, como nos revela. "Não é simples para um moço que não conhecia o mundo, como eu, chegar onde cheguei sem alguém para encaminhar."


Colasanti conta que sua história com a música começou muito precocemente. Embora não venha de uma família de músicos, foi descoberto aos 5 anos de idade, por um integrante de uma orquestra italiana. Estudou em diversas escolas, tem atuado em salas de concerto de vários pontos do planeta e é considerado pela crítica um dos melhores e ecléticos regentes de sua geração.

O maestro, que quer simplesmente emocionar por meio da música, termina a entrevista fazendo uma outra revelação. Ele diz sonhar com o dia em que cada concerto da Osuel seja como um festival para a cidade. Quem sabe na noite deste domingo, ao soarem os primeiros acordes de Villa Lobos e Beethoven sob o seu comando, não tenhamos um festival dentro do Festival de Música de Londrina?

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