PERFIL - Jornalismo policial nas veias
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sábado, 03 de agosto de 2013
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Fugas espetaculares, crimes envoltos em mistérios, superlotação nas celas, abusos de autoridade. É como se tudo tivesse acontecido ontem para a jornalista Nicéia Lopes, de 49 anos, 29 deles dedicados à cobertura dos fatos policiais da cidade. De 1979 a 2008 sua rotina se resumiu em plantões diários na 10ª Subdivisão Policial (SDP), anexa ao grande caixote de concreto onde, por quatro décadas, funcionou a única cadeia pública de Londrina, conhecida como Cadeião. No complexo construído no número 25 da Rua Sergipe, bem no Centro, Nicéia passou muitos dos seus dias, o que lhe dá conhecimento de causa para afirmar: "A história só se repete. Até hoje a tortura é muito usada porque querem mostrar solução rápida para os crimes, sem ter trabalho", afirma, referindo-se ao caso da adolescente Tayná Adriane da Silva, morta em Colombo (RMC) no mês passado.
Em visita à antiga cadeia dias atrás, acompanhada da reportagem da FOLHA, a radialista se surpreendeu com o ritmo das obras no prédio, atualmente em reformas para abrigar um centro cultural administrado pelo Sistema Fecomércio/Sesc-Senac, e relembrou passagens de uma história escrita às custas de muitas vidas. Quando as últimas celas foram esvaziadas, em janeiro de 1994, o Cadeião contabilizava um saldo de pelo menos 76 vítimas de morte violenta ali dentro. Entre as que não foram esquecidas por Nicéia está a de Capoeira, ocorrida em 1981. Ele havia ganho este apelido porque era o mestre do esporte dos demais presos, e também por isso muito respeitado. "Um dia aconteceu um desentendimento entre eles, a Polícia Militar foi chamada e Capoeira foi morto por espancamento. Foi um caso que teve muita repercussão", recorda-se a jornalista.
Nicéia começou a trabalhar na extinta Rádio Clube realizando um sonho de infância. "Sempre me identifiquei com o rádio." Ela conta como aconteceu sua estreia na profissão: "Um dia o Angelo Gaioto, que era o setorista de polícia, ficou doente e pediu que eu fosse para a 10ª no seu lugar. Chegando lá, tinha uma travesti morta no IML (Instituto Médico Legal) e eu tive que ir falar com o delegado. Ele duvidou que eu fosse maior de idade." Daquele dia em diante, o local passou a fazer parte da rotina de Nicéia. Nos anos seguintes, além da Rádio Clube, ela passou pelas Rádios Londrina, Alvorada, Cruzeiro AM e Brasil Sul. Também trabalhou na TV Tropical e Jornal de Londrina.
A boa memória e a presença constante na delegacia fizeram da profissional um arquivo vivo dos casos policiais da cidade, a quem muitos colegas de profissão recorriam para conseguir informações, quando não era possível obtê-las diretamente junto às autoridades. "Em 1982, mais de 30 presos fugiram por um túnel que começava nos fundos da cadeia, passava por baixo do pátio do IML e terminava embaixo da janela da sala do delegado-chefe, direto na (avenida) Leste-Oeste. O túnel foi considerado uma verdadeira obra de engenharia", relembra.
Com frequência a radialista entrava na carceragem. Nunca sentiu-se amedrontada, nunca recebeu ameaças por parte dos presos. "As missas de Natal eram feitas no pátio de sol e a gente sempre acompanhava. Uma vez entramos com dom Albano (atualmente arcebispo emérito da Diocese de Londrina), o juiz corregedor, o chefe da carceragem e o pessoal da Pastoral Carcerária. Na época não tinha mais guarda interna na cadeia e mesmo assim nós entramos, com mais de 200 presos nas celas. Quando ficou sabendo, o delegado-chefe ficou bravo, mas não aconteceu nada conosco, foi supertranquilo. O dom Albano até distribuiu cartões de Natal para os presos", recorda-se.
Formada em Ciências Sociais e com registro de jornalista obtido pelos anos de prática, Nicéia sempre se destacou pela forma de trabalhar. "Para mim, o mais importante para um repórter é o compromisso com a informação e a coragem de mostrar a verdade. Eu nunca humilhei nem obriguei preso nenhum a dar entrevista se não quisesse. Nunca cerceei direitos. Arrumei muitas brigas por isso, inclusive com colegas de trabalho", confessa. A coragem de denunciar abusos também acompanhou a jornalista ao longo da carreira. "Cheguei a ser intimada para depor na Corregedoria da Polícia Civil, pelas denúncias que fazia. Uma vez falei sobre a existência de um laboratório de refino de coca na cidade e fui ameaçada dentro da minha casa."
Mesmo longe do dia a dia das delegacias, Nicéia continua acompanhando de perto os casos policiais de Londrina e os que ganham repercussão nacional. O inconformismo continua a correr por suas veias, e aflora sempre que o assunto são os casos que, mesmo com o passar dos anos, continuam sem um desfecho. "Não existe crime insolúvel, existe crime não investigado ou mal investigado. Hoje em dia há muita tecnologia disponível, mas tem que ser usada para fornecer elementos que levem ao suspeito com provas concretas", sugere.


