A primeira vez que Sebastiana Aquino de Oliveira Arruda entrou em um consultório dentário tinha 16 anos. Era a primeira vez que lhe aparecia uma cárie. Naqueles dias, a garota que passou a infância no sítio não sabia, mas apenas um ano depois, ela própria começaria a entrar no universo dos conhecimentos odontológicos, em uma época em que a imensa maioria das mulheres só tinha em mente o ofício de professora. A sugestão de cursar Odontologia foi do irmão, que já era estudante de Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

"De uma turma de 80, só 10 ou 12 eram mulheres", relembra a cirurgiã dentista, que com o passar dos anos se tornaria uma referência no tratamento de pacientes com necessidades especiais e uma das poucas a atuar na área. Hoje, aos 73 anos, ela é vista como um anjo por muitas famílias, capaz de aliviar dores agudas de crianças, jovens e adultos que vêm de várias regiões do Paraná e até de outros estados.

Sebastiana revela, porém, que nada foi planejado. Assim como não sonhou na infância em ser dentista, ela não imaginou que sua carreira acabaria direcionada a casos que muitas vezes demandam conhecimento específico para ser tratados. "Quando entrei na faculdade não tinha noção do que era a profissão. Eu era muito nova, tinha 17 anos, passei sem fazer cursinho, sem nada. Hoje vejo que eu era praticamente uma criança", relembra a dentista.

Sempre tímida e reservada, Sebastiana conta que o ambiente universitário e a vida na Casa do Estudante da UFPR, onde morou durante os quatro anos de graduação, permitiram que ela se soltasse e exercitasse a descontração. Ao final do curso, a vontade era de continuar morando em Curitiba e frequentando a universidade. "E olha que quando passei no vestibular a duração do curso era de três anos. Enquanto eu estudava, o currículo foi estendido para quatro anos. Mesmo assim a gente ainda queria mais", confessa.

Ao se formar, Sebastiana voltou para Londrina e, depois de um tempo atendendo em Mandaguaçu, foi convidada a dar aulas no recém-criado curso de Odontologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Começava uma carreira de 35 anos de docência, na cadeira de Dentística Operatória. Paralelamente, porém, montou seu consultório na Rua Tupi, próximo à Avenida JK. O endereço seria definitivo para os rumos da vida profissional de Sebastiana.

Pela proximidade com o Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (Ilece), ela começou a ser procurada para atender os alunos de lá com problemas dentários. "No começo eu não tinha conhecimento específico a respeito, porque na universidade não vi nada sobre o assunto. Comecei a atender aos poucos, e de repente, quase a escola inteira eram meus pacientes. Como já era docente da UEL, fiz um projeto de extensão na área, chamado Organização no Atendimento ao Paciente Excepcional, que foi muito bem-sucedido e premiado. Em função deste projeto, conseguimos um equipamento completo para montar um consultório dentro do Ilece, e comecei a atender lá uma vez por semana", conta.

Desta época, final da década de 1980, Sebastiana relembra que nasceu a ideia de montar um grupo de estudo sobre o assunto. "Foi muito bom porque havia cerca de 15 alunos participando e fazíamos uma vez por mês reuniões científicas. Enquanto isso, eu me aprofundava nos estudos na área. Foi muito bom porque aquele grupo conseguiu adquirir um bom conhecimento sobre o assunto, e a demanda deste tipo de atendimento é muito grande."

É justamente esta demanda, e a falta de profissionais dispostos a atendê-la, as grandes preocupações da cirurgiã dentista atualmente. "É difícil encontrar quem queira atendê-los", constata. Como forma de fazer sua parte, Sebastiana transformou seu consultório em reduto desta clientela acostumada à exclusão e às dificuldades desde o nascimento. "Todas as quintas-feiras minha agenda é reservada aos atendimentos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Não tenho nem ideia de quantas pessoas vou atender. São as Unidades Básicas de Saúde que organizam esta agenda e eu só tenho acesso no dia do atendimento." Além disso, uma vez por semana ela se dedica aos casos que necessitam de anestesia geral, atendidos nos hospitais da região.

Apesar da rotina de 10 horas diárias de trabalho, em média, Sebastiana não pensa em parar. "Não fico doente, não preciso de remédios, e às vezes ainda me pego sonhando com novos projetos. Enquanto acordar de manhã com disposição para trabalhar o dia todo, vou continuar", garante a dentista. Idealizadora do Grupo de Estudo para o Desenvolvimento e Tratamento Odontológico ao Excepcional de Londrina (Getexcel), sediado no Centro de Saúde Especial Bárbara Daher, no Jardim do Sol (Zona Oeste de Londrina), desde 1994, a cirurgiã diz acalentar um sonho. "Gostaria que o projeto continuasse a funcionar como foi concebido, com atendimento clínico e ambulatorial. Existe uma parcela da população que precisa muito deste serviço." Sebastiana afastou-se das atividades do Getexcel há 10 anos.

mockup