Prestes a completar 60 anos de carreira, o médico Henrique Alves Pereira Júnior, chamado carinhosamente de Henriquinho pelos amigos, continua na ativa no auge de seus quase 86 anos de vida. Formado no início da década de 1950 pela Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no tempo em que médico, principalmente do interior, tinha que saber de tudo um pouco da medicina, ele ainda guarda de lembrança a maleta de couro com os utensílios da época.
Natural de Miraí, em Minas Gerais, na Zona da Mata - cidade do cantor e compositor Ataulfo Alves, como faz questão de frisar –, ficou lá apenas até os dez anos. "Foi uma infância tranquila de cidade pequena do interior, que mais parecia uma comunidade", lembra. Depois, foi morar em um internato, em Juiz de Fora, para cursar o antigo ginásio e científico; prática comum às famílias que queriam que os filhos continuassem os estudos. Henriquinho é o filho do meio de uma prole de quatro mulheres e três homens.
Longe dos pais, já que a cidade ficava a 150 quilômetros de distância, diz que as peripécias da adolescência não eram muitas. "A lembrança mais rebelde que tenho é de fumar cigarro escondido com os outros meninos", conta rindo. Apesar de muito jovem, nesta época já pensava em seguir a mesma carreira do pai e do irmão mais velho: a medicina. "Sempre tive forte em mim a vontade de exercer a medicina e trabalhar ajudando as pessoas." Seu irmão mais novo também fez o mesmo.
Pouco depois de completar a maioridade, foi na segunda tentativa que entrou na faculdade. "Era muito difícil." Mas, sempre aplicado aos estudos, iniciou a graduação em 1948 na instituição mais bem conceituada da época. "Junto com meu irmão, morava numa pensão, onde praticamente só dormia, pois o ritmo de estudos era puxado; manhã e tarde de teoria aliada à prática desde o começo", resume. Método este que, segundo ele, foi responsável por sua formação geral sólida. "O aluno saía da faculdade sabendo examinar com afinco e até mesmo operar o paciente", valoriza.
Com o sonho de morar no interior, preferencialmente Londrina, já famosa por seu crescimento pujante e promissor, deu seu pontapé inicial na carreira na cidade de Jussara, localizada no Norte Novíssimo do Paraná, desbravando a região. "Fiquei lá por cinco anos, onde montei meu consultório e, depois de um tempo, abri um pequeno hospital de madeira", pontua. Período em que atuou como clínico geral e fez cirurgias de todos os tipos, incluindo partos. "Contava com a ajuda de uma enfermeira e um farmacêutico, que era o anestesista", compara.
Segundo o doutor Henrique, médico do interior precisava saber e estar preparado para fazer de tudo a qualquer momento. "A zona rural era muito maior que a urbana nesse tempo. Então, era muito comum eu ser chamado nessas propriedades para alguma emergência". Para tanto, precisava de todo o aparato necessário para ir até o paciente. "Carregava na maleta todos os materiais para uma eventual cirurgia ou sutura. Além disso, vários medicamentos para salvar a vida da pessoa", diz, complementando que o paciente era removido ao hospital, caso fosse preciso um restabelecimento com mais cuidados ou intervenção maior. "Desde sempre a morte é o maior inimigo do médico."
Dado o começo agitado da carreira, mudou-se para Terra Boa, noroeste do Estado, onde também abriu um hospital. Com o mesmo ritmo e dedicação na saúde, não demorou para que os moradores incentivassem a candidatura como prefeito da cidade. "Só aceitei com a condição de que não iria parar com a medicina. Trabalhava no consultório de manhã e na prefeitura à tarde", discorre, orgulhando-se de ter implantado sistema de saneamento e galerias pluviais na cidade. Durante esses anos, casou-se e todos os quatro filhos nasceram na terra que o acolheu.
Ao término do mandato, coincidentemente ou não, foi aberto um edital para cirurgião geral na Universidade Estadual de Londrina (UEL). "Meu sonho de morar aqui estava prestes a se concretizar". Fez e passou em primeiro lugar e pôde, finalmente, dar seguimento à carreira. Já atendendo pacientes e realizando cirurgias, seu conhecimento logo foi requisitado para a docência, o tornando coordenador de duas disciplinas: clínica médica e semiologia, até 1994, quando se aposentou.
O combinado de dar aulas, porém, era que isso não o impedisse de continuar com os pacientes. "Passei, portanto, por praticamente todos os plantões dos hospitais de Londrina, além de continuar com o consultório." Nestas décadas, pela experiência adquirida, conquistou outras especialidades: clínica médica, cirurgia geral, obstetrícia e medicina legal. Organizou ainda a implantação do sistema de saúde aos servidores do Governo do Estado do Paraná, antigo Ipê e atual SAS; fundou com outros cinco médicos a cooperativa de médicos Unimed de Londrina. Aposentado do bisturi, atua, hoje, como médico legal dando pareceres em laudos de processo de perícias médicas.

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