PERFIL - A África é aqui
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de novembro de 2013
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Quando pisou pela primeira vez na cidade, em 6 de março de 2004, a africana Neyde Jordão, de 31 anos, nascida em São Tomé e Príncipe, era só receio. Seu destino inicial era Florianópolis (SC), para onde foram os outros 41 intercambistas que saíram da antiga colônia portuguesa para cursar uma universidade no Sul do Brasil. Na última hora, porém, sabe-se lá por que, os documentos de Neyde foram emitidos para Londrina. O grupo perdeu sua líder, e os londrinenses ganharam uma cabeleireira afro de mão cheia.
Neyde tornou-se proprietária do primeiro salão de beleza local especializado em tranças, penteados, apliques e outros recursos utilizados em cabelos da raça negra. Antes de ter o próprio negócio, porém, a santomense de riso fácil e personalidade afetuosa percorreu o difícil caminho dos que chegam em terra estranha. "Saí de São Tomé porque, na época, lá não tinha universidade. Deixei namorado e um emprego como secretária do ministro da Justiça. Cheguei em Londrina sozinha, sem conhecer ninguém. Estranhei muito, porque em outros países providenciam moradia para os intercambistas, aqui eu não tinha nada me esperando. Mas não cheguei a ficar desamparada, porque nós africanos apoiamos muito uns aos outros. Os que estão cá sabem o que os outros passaram", relata, com seu português lusitano.
Os penteados exóticos de Neyde sempre chamaram a atenção pelas ruas londrinenses. Desde os primeiros anos de universidade, é questionada com frequência sobre onde conseguir tranças e apliques como os que costuma exibir. "Percebi que havia uma demanda, e resolvi trabalhar o assunto no meu projeto de pesquisa, no curso de Administração de Empresas. Assim que me formei, implementei a ideia." Isso foi em fevereiro de 2008, e hoje em seu salão são atendidos clientes de Londrina e várias cidades da região.
"Meu foco são as pessoas negras, porque Londrina tem mil salões, que fazem quase tudo, mas não o que faço aqui." Segundo Neyde, há outras africanas na cidade que também trabalham com cabelos, porém atendem nas casas dos clientes. Ela avisa que em seu estabelecimento não faz alisamentos, escovas progressivas e outros tratamentos químicos, nem manicure e pedicure. Seu trabalho se concentra na confecção de tranças, dreads, aplicação de mega hairs, tranças postiças e outros recursos utilizados por afrodescendentes.
"Existe a ideia de que, para nos identificarmos com nossa cultura, temos que deixar nosso cabelo crespo. Mas não é assim. Podemos usá-lo do jeito que tivermos vontade, até um chanel", afirma. Segundo ela, atualmente na África não há mais diferenciação de etnias pelo trançado nos cabelos, como antigamente. "O que acontece hoje, no máximo, é comentarmos, quando uma mulher aparece com um cabelão, que ela está com dinheiro." A própria Neyde confessa que muda de cabelo o tempo todo. "Coloco todo tipo de aplique, mesmo que seja para ficar igual ao meu cabelo original", conta ela, que no dia da entrevista exibia cachos artificiais no estilo black power. Seus cabelos de verdade estavam trançados rente ao couro cabeludo.
Tranças africanas
As várias técnicas de trançar os fios foram aprendidas na terra natal. "Durante uma época, quando eu tinha entre oito e nove anos, minha família morou em Angola, e uma tia minha de lá me ensinou as tranças básicas. Como na África é comum as mulheres mais velhas trançarem os cabelos das mais novas, aprendi praticando." Atualmente Neyde faz apenas reciclagens, principalmente em São Paulo.
E os medos sentidos nos primeiros dias de Londrina? Segundo a cabeleireira, foram transformados em uma grande paixão. "Amo esta cidade. Já recebi proposta para trabalhar em São Paulo e Florianópolis, mas nestas cidades não há a tranquilidade que a gente tem aqui", argumenta. Neyde admite que em alguns dias acorda com muita saudade de São Tomé, mas já não pensa em voltar definitivamente para lá. "Até uns anos atrás, antes de comprar qualquer coisa eu pensava primeiro no peso e se caberia na mala. Hoje eu penso que, se voltar para junto da minha família, será apenas por um tempo. A ideia, no futuro, é me dividir entre lá e cá."
Mas enquanto se movimenta pelo pequeno salão, fazendo várias coisas ao mesmo tempo e atendendo ao telefone que não para de tocar, ela avisa que seus horizontes ainda "não estão fechados". "Já fiz pós e MBA na área de administração. Como não penso em fazer carreira acadêmica, talvez faça um novo curso de graduação, quem sabe Direito", arrisca.
Os homens e mulheres atendidos por Neyde, porém, podem ficar tranquilos. Ela não pretende deixar, tão cedo, de sobreviver com a habilidade de suas mãos. "Trabalho muito por prazer. Aqui não faço clientes, faço amigos", diz, enquanto mais uma trança de fios sintéticos é colocada na mulher de cabelos curtinhos, que em pouco tempo sairá do pequeno shopping da movimentada Rua Sergipe balançando uma longa cabeleira.


