Franciele Seixas Lima, de 22 anos, é uma jovem estagiária de um banco em Jaguapitã. Cursando o último ano de Ciências Contábeis, trabalha auxiliando clientes no autoatendimento da agência do município. Negra, ela teve que se esforçar muito para conseguir oportunidades na vida. Apesar da competência, já foi maltratada em várias ocasiões por clientes do banco que ainda estranham ver uma negra executando uma função que não é restrita aos serviços gerais da instituição.
Uma das passagens mais marcantes foi quando uma moça perguntou a Franciele quem poderia ajudá-la no caixa eletrônico. Quando respondeu que era ela mesma a responsável, a cliente não escondeu o preconceito. ''Ela respondeu: 'pensei que você fosse da limpeza'. Para mim, a mensagem que a cliente passou foi que negros não podem ser bancários, só podem trabalhar na limpeza'', lamenta.
Em outra ocasião, ofereceu ajuda a uma mulher que não conseguia resolver um problema com o banco. Ao invés de aceitar, a cliente respondeu que ''aqui não é lugar para você''.''Quando questionei o motivo, ela afirmou que não era comum ver gente com o meu tom de pele atendendo no banco. Terminei o atendimento e levei o fato ao gerente, que me aconselhou a não atender mais aquela pessoa para não passar por novos constrangimentos.''
Única negra da turma de faculdade, ela foi também a única negra convidada para participar do concurso Miss Guaraci, no município onde mora. ''Por causa do racismo que sofrem, muitos negros têm baixa autoestima e não se acham capazes de conquistar boas oportunidades. As pessoas esperam que sejamos sempre subservientes'', relata.
Tia de uma menina de 7 anos, ela lamenta, também, que a criança continue sofrendo na escola o mesmo tratamento preconceituoso que ela também sofria nos primeiros anos escolares. ''Esses dias ela disse que ia tomar banho para tentar ficar branca. Fico triste, porque vejo que o racismo não foi superado'', diz.
Consciente dos próprios direitos, Franciele afirma que, apesar de haver uma legislação que criminaliza o preconceito de raça e cor, ainda faltam aparatos para receber denúncias. ''Eu mesma errei muitas vezes, por não ter denunciado o racismo que sofri. Essa questão precisa começar a ser discutida desde a escola, para que o problema seja finalmente superado.''(C.A.)

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