Pavor dos alemães: "Se fosse pego, me matava"
José Soares Neto, 92 anos, servia o Exército em São Paulo quando o Brasil anunciou sua entrada oficial ao grupo dos Aliados e passou a convocar os brasileiros para a guerra. O jovem não se adaptava à rigidez do serviço militar, por isso aquela experiência estava sendo uma das mais difíceis de sua vida. "Quando veio a convocação, eu estava preso no quartel por desacato. Não suportava que gritassem comigo por qualquer coisa", revela.
Morador de Londrina há mais de 60 anos, José conta que ele e os companheiros foram retirados do xadrez e colocados em um caminhão sem receber qualquer informação. "Só quando chegamos para fazer exames de saúde é que soubemos que iríamos para a guerra." A difícil convivência no regimento o fez achar que nada poderia ser pior, por isso não teve medo. "Não pude me despedir da família em Ourinhos (SP), não deu tempo. Pedi para uma tia dizer aos meus pais que eu estava indo para uma excursão e que ficaria fora uns meses. Depois, já na Itália, mandei uma carta explicando tudo."
A proximidade da morte foi um grande pesadelo, mas não o pior deles. "Todo dia a gente via colega morrendo, mas eu não tinha medo disso. O que eu mais temia era cair na mão dos alemães, de ser prisioneiro deles, porque os nazistas faziam barbaridades mesmo. Eu carregava uma pistola na cinta com um pente de balas na agulha e outro no bolso. Se eu fosse pego, me matava", revela o motorista aposentado.
Logo em um dos primeiros combates, em Aferico, enquanto conversava com um amigo, um tiro lhe atingiu o ouvido esquerdo, fazendo-o perder a audição. Mas o susto maior, conta, foi quando um morteiro atingiu um fardo de feno usado por ele e alguns companheiros como esconderijo. "Por sorte a bala não explodiu. Imagine, eu não estaria aqui hoje." Em uma outra ocasião José também "nasceu de novo". "Estávamos escondidos em um porão, quando o tenente me chamou para sair à rua com ele. Já na porta ele desistiu, dizendo que a coisa estava feia lá fora. Um tempo depois, quando íamos sair, um morteiro caiu bem em cima do nosso jipe. Por duas vezes eu escapei de morrer."
Na parede da sala da casa que mora há mais 30 anos, o motorista guarda algumas de suas relíquias: um quadro com uma reprodução da bandeira do Brasil, um retrato dele com a farda da FEB e seu inseparável lenço no pescoço e dois quadros ostentando diplomas recebidos em combate. No quarto, em uma mala da década de 1940, estão as fardas (de gala e de combate), a boina, o gorro de lã que usava quando o tiro lhe atingiu o ouvido, as cartas trocadas com a família, o kit de higiene, a sacola usada para carregar munição e o cantil de alumínio quase sempre ocupado por vinho. "Era o que mais tinha nas casas", justifica-se José. No olhar, ele ainda carrega o peso daqueles dias. "Tinha um amigo, Polaquinho, que morreu ao meu lado. Dali em diante passei a encarar a guerra de forma diferente. Tinha dia que a gente chorava sozinho, sem saber se íamos voltar para casa." (S.L.)





