Curitiba – Na avaliação de parlamentares e filiadas a legendas ouvidas pela FOLHA, reservar 50% ou ao menos 30% das vagas nas Casas Legislativas para as mulheres seria um passo importante, entretanto, que ainda não resolveria o problema da sub-representação feminina na política. "Sou totalmente favorável. Não há outra forma de se fazer esse enfrentamento, hoje. A minha experiência mesmo é super complicada. Os partidos não apoiam as mulheres. Eles não se mobilizam para ter 30% de mulheres, e sim para ter os 70% de homens", afirmou a vereadora Maria Leticia Fagundes (PV), de Curitiba.

Médica legista com mais de 30 anos de carreira, ela falou que vivenciou episódios de machismo desde o início da campanha. "Eu percebia a resistência. Tenho penetração em um segmento que não é fácil. Faço cirurgia ginecológica e muitas vezes ouvi que opero muito bem, ‘como um homem’", contou. Única mulher entre os 19 vereadores eleitos em Londrina, Daniele Ziober (PPS) também disse achar a proposta válida. "É importante, embora a gente fique triste de ver que a mulher está acostumada a votar no homem. Essa é uma visão errônea. Temos o maior número de eleitores e o menor número de efetivos em cargos. Essa cultura precisa mudar."

De acordo com a advogada e militante feminista Xênia Mello (Psol), que concorreu à Prefeitura de Curitiba em 2016, as cotas são um direito. Deveriam, contudo, vir aliadas a outras medidas, que garantissem a real igualdade de gênero nos espaços públicos. "Por exemplo: os custos de campanha e o tempo de televisão. Se fizermos uma avaliação, existe uma diferença muito grande entre homens e mulheres quanto ao financiamento. Todos os partidos, de centro, esquerda ou direita, têm uma estrutura machista", opinou.

Como alternativa, ela propõe a realização de formações políticas sistemáticas e contínuas, a construção de creches nos diretórios ou sedes das legendas e a realização de reuniões em horários alternativos, permitindo a participação efetiva das mães "Precisamos fazer um debate sobre a coletividade de cuidados. A estrutura hoje é desumana. Basta lembrar que há dois anos não existia nem banheiro feminino no Senado. A (deputada estadual) Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) deixou de concorrer à prefeitura (de Porto Alegre) para priorizar o cuidado e a privacidade da filha, de tão brutal que é o processo político."

A jornalista Anaterra Viana, do Coletivo de Mulheres do PT, tem percepção semelhante. "Essa é uma luta antiga dos movimentos feministas, principalmente dentro dos partidos mais progressistas. Já começamos com as cotas de 30% nos cargos de direção internos e fomos para 50%, como exemplo do que deveria ocorrer ‘para fora’. Só assim, forçando a representatividade, que os partidos vão investir mais na formação de quadros de mulheres. Até porque a mulherada que está no Legislativo trabalha bastante e faz coisas significativas."

Segundo ela, além da existência de espaços auto-organizados nas siglas, caso do coletivo, é importante realizar formações voltadas aos homens. "Precisamos que eles entendam essa necessidade de compartilhamento. Muitos casais fazem política juntos; as mulheres se inserem na vida partidária, mas não conseguem ficar à frente porque a responsabilidade em casa, no cuidado com os filhos, não é dividida. E isso não acontece só no PT. Quando participam dos eventos, conferências, elas tendem a ficar no credenciamento, a fazer um trabalho apenas de ‘tarefeiras’, burocrático, e não de quem vai pensar e articular a política." (M.F.R.)

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