PARA QUEM TEM CORAGEM - Um novo rumo para a vida
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de julho de 2013
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Quem um dia já não pensou em recomeçar? Deixar para trás tudo ou quase tudo que foi conquistado para sair em busca de uma nova vida, de novas paisagens, de novas pessoas, é uma ideia especialmente sedutora para o ser humano, que depende de mudanças para viver. Mas poucos conseguem colocar esta ideia em prática. A decisão exige uma grande dose de desprendimento, planejamento, disposição para enfrentar desafios e capacidade de ouvir os próprios desejos. Quem o fez, como os protagonistas das histórias relatadas aqui, são unânimes em afirmar que vale a pena.
Para a fotógrafa Carol Da Riva e o jornalista Edu Petta a grande reviravolta aconteceu em 1997. Ele, que até então atuava como advogado, havia resolvido seguir para um ano sabático na Ásia queria viajar pelo mundo e escrever sobre isso. Na aventura conheceu a companheira, que mochilava pela Indonésia e acabara de comprar uma câmera profissional. Nos últimos 16 anos a vida do casal tem sido quase sempre nas estradas, conhecendo destinos pouco divulgados e mostrando-os ao mundo, por meio de reportagens que produzem para veículos especializados. Em 2004 ganharam a companhia de Tiago, o filho mais velho, e em 2011 de Luisa, a caçula da família. Só na barriga da mãe, a garota visitou onze nações.
Atualmente os quatro estão ancorados na Ilha de Bali (Indonésia), onde encontraram campo fértil para os trabalhos na área de turismo e boas ondas para o surfe. Mas pelo menos duas viagens longas e duas curtas, em feriados, são feitas por ano. Em entrevista por e-mail à FOLHA, Carol contou que ela e o marido sempre tiveram "rodinhas nos pés" e amor pela estrada. "Somos movidos por coisas novas, queremos mais e mais, viajar e conhecer é para nós um vício, como uma droga que precisamos de mais uma dose, então, por mais que Bali seja animal, já estamos planejando levantar as velas em 2014", revelou.
Em suas andanças, Carol e Edu nunca se preocuparam muito com o destino que iriam encontrar pela frente. O que interessava de fato era viver intensamente o presente, "focados no caminho do meio". Com a chegada do primeiro filho, eles chegaram a pensar que era hora de fincar os pés em um só lugar, porém, logo estavam caindo na estrada com Tiago, transformando-o em fotógrafo mirim. "Com o nascimento da Luisa, o conceito virou de vez viajar em família, mas com o foco em sustentabilidade e cultura." Resultado: aos 8 anos, o garoto já esteve em 20 países dos cinco continentes e fala quatro línguas; a irmã nasceu em Bali, conheceu o Mianmar aos quatro meses e passou o aniversário de um ano nas Filipinas.
Carol reconhece que a família já pensou algumas vezes em fixar raízes em Bali - "sempre existe esse desejo do ser humano de achar o seu lugar" -, mas diz que o desejo passa com o tempo. Os novos destinos são escolhidos a partir de alguns critérios: "O lugar tem que ter pessoas legais em volta. O ser humano é muito importante. Tem que ter uma escola bacana para o Tiago. E tem que ter o mar com ondas para o surfe por perto, se não o Edu pira", contou a fotógrafa.
Para completar a renda obtida com os textos e fotos jornalísticos, Edu dá treinos de futebol, surfe e yoga. Mas nem tudo são flores e belas paisagens na vida desta família nômade. De acordo com a fotógrafa, já houve períodos muito difíceis, em que eles se viram obrigados a recorrer a empréstimos bancários e usar o limite do cheque especial. "Já demos muito dinheiro para banco. Não é fácil sobreviver", desabafou Carol, para em seguida, porém, concluir: "A gente ganha pouco, mas se diverte muito pelo caminho, e não importa onde vamos chegar, o que vale é a viagem."
O casal mantém um blog (estadao.com.br/aprendendo-no-mundo)em que procura encorajar outras famílias "a se jogar na estrada". Aos que ainda não tiveram coragem, Carol tem um conselho: "Se joga que a vida passa rápido pacas e imagino que deve dar um vazio e um arrependimento danado em quem não corre atrás do que quer. Gosto da frase do Carlos Castaneda que diz que cada um cria a sua própria realidade. O resto são desculpas ou o ego, ou a falsa segurança do sofá. Se joga na estrada, que os deuses do asfalto protegem os viajantes de bom coração de todos os males. Pelo menos é bom pensar assim!"


