Para feminista, maternidade é um conceito mais amplo
Foi a maternidade que transformou a psicóloga Cyntia Beltrão em uma militante feminista. Adepta dos ideais do movimento antes mesmo do nascimento do filho, foi apenas quando se tornou mãe de uma criança cardiopata e autista que ela abraçou a causa como ativista."Renego o rótulo de 'mãe especial' por motivos políticos e feministas: é uma forma de aprisionar ideologicamente a mulher, de modo a ela se conformar com sua situação e não exigir direitos".
Diferentemente do que permeia o senso comum, Cyntia defende que a maternidade não é uma função exclusiva da mulher que pariu os filhos. "Até pouco tempo, os cuidados pela criação da criança eram de todos da comunidade, tanto mulheres quanto homens. Avós, tios, irmãos, todos participavam. A noção de maternidade como responsabilidade unicamente da mulher é recente e remete ao surgimento da burguesia urbana e de famílias de núcleo mais reduzido", analisa.
Cyntia enfatiza que a maternidade é um assunto controverso dentro do próprio movimento feminista. Enquanto algumas militantes acreditam que a escolha de ser mãe coloca as mulheres em um papel patriarcal e tira a possibilidade de serem verdadeiramente feministas, ela discorda ao defender que o movimento é para todas, inclusive aquelas que se inserem voluntariamente em uma família heterossexual e com filhos.
"Apesar de acreditar que para muitas o casamento, a maternidade e até a heterossexualidade foram impostas de forma compulsória, não creio que isso seja verdade para todas. Existem mulheres para as quais a maternidade é uma fonte de sofrimento e existem as que estão felizes nesse papel", opina.
A militante defende, ainda, que a maternidade pode, inclusive, levar muitas mães a enxergarem a opressão patriarcal à qual estão submetidas. "São mulheres que só percebem seu lugar como oprimidas quando se veem diante de uma situação de solidão, sem apoio do marido, diminuídas enquanto seres humanos, depois que viraram mães, preteridas no emprego e impedidas de crescer socialmente. Neste sentido a maternidade pode ser uma verdadeira epifania ", acredita. (C.A.)





