No Supermercado Cambará, a palavra dos clientes tem tanto valor quanto os intermináveis cadastros utilizados pelas operadoras de cartões para liberar crédito. Fundado há 45 anos pelo patriarca José Lazari, de 72 anos, no Jardim Cambará, na zona leste de Londrina, o estabelecimento é do tempo em que os fregueses faziam compras e anotavam na "caderneta" para pagar no fim do mês. Com a informatização, as anotações foram abandonadas, mas a prática de vender "fiado" permaneceu, agora modernizada por um sistema desenvolvido especificamente para atender os clientes antigos que preferem pagar a conta diretamente para os donos, sem a intermediação de instituições financeiras.
O supermercado é atualmente administrado pelos filhos do fundador: Egberto, de 46, Marcelo, de 44 e Alexandre, de 38. Eles explicam que os clientes têm um código e uma senha que utilizam para fazer as compras. No prazo combinado para o pagamento, eles vão ao estabelecimento, recebem um extrato e fazem o acerto. "A cada compra, eles ficam com o cupom fiscal para fazerem o controle", acrescenta Egberto.
A solução foi adotada para privilegiar os clientes antigos, acostumados ao esquema da caderneta, mas acabou caindo nas graças das novas gerações das mesmas famílias. "Antes de utilizar nosso próprio sistema, até tentamos com empresas que administram cartões, mas não deu certo. Os clientes não gostavam de ter que pagar o boleto no banco", conta. Além disso, direto com os donos do mercado há sempre possibilidade de negociar. "Se o salário da pessoa atrasa, a gente também espera um pouco para receber sem cobrar juros", exemplifica.
O critério para oferecer o benefício aos clientes independe de cadastros minuciosos, com apresentação de vários documentos e comprovação de renda. "A gente oferece crédito para pessoas que conhecemos há muitas décadas. Não precisamos pedir comprovante de renda", dizem os três, que foram criados no supermercado. A relação de confiança traz diversas vantagens. Uma delas é o baixo índice de inadimplência, que não atinge 1%. Além disso, eles mantiveram a fidelidade da freguesia, que prefere comprar no Cambará apesar da concorrência das grandes redes. "Dessa forma continuamos crescendo", disseram.
A dona de casa Antônia Petrachin da Silva, de 70, compra no supermercado há 45 anos, desde os tempos em que "era só uma portinha". "Não troco o Cambará por nenhum outro. Aqui, se eu tenho dinheiro eu compro. Se não tenho, compro do mesmo jeito", diz ela, que nunca atrasou o pagamento da conta para manter a confiança. "Quando meu marido recebe a aposentaria, é a primeira dívida que eu acerto. Comida é sagrada, né?", explica.
Dona Antônia admite que, no mundo atual, conseguir comprar a crédito é difícil, porque "ninguém mais confia na palavra do outro". É por isso que ela se mantém fiel ao Cambará. "O lugar onde eu mais compro é aqui", conta.
Os donos do mercado revelam que o esquema de vender "fiado" ajuda não apenas aqueles que não têm dinheiro para pagar à vista. Muitos clientes que não têm tempo de fazer supermercado abrem a conta e autorizam os filhos ou a empregada doméstica a comprar e assinar a nota. Dessa forma, é possível fazer as compras e acertar depois. "Tem muita gente que mudou do bairro, mas continua ligando para a gente entregar por causa dessa facilidade de pagar depois, pois nem sempre estão em casa", revela Egberto.
É o caso da empregada doméstica Edna Antunes, que faz as compras da família da casa onde trabalha, assina a nota e a patroa apenas passa para pagar. "Muitas vezes eu ligo, peço para separarem a carne que vou precisar e só passo para pegar", conta ela, que se considera participante de uma grande rede de confiança. "Os donos do supermercado confiam na minha patroa, que confia em mim a ponto de deixar a filha dela comigo. Esse tipo de coisa é cada vez mais difícil nos dias de hoje", considera.

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