PAISAGEM URBANA - Antes de ser erguido, Big Ben vira passarela para a polêmica
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sábado, 21 de setembro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Quatro torres de 13 metros de altura, inspiradas na arquitetura do Palácio de Westminster, prédio gótico de Londres que abriga o parlamento britânico e o célebre Big Ben, vão "vestir" o horizonte da maior cidade do interior do Estado. Quase oito décadas depois de começar a sair do papel, Londrina está às vésperas de assumir de vez aos visitantes seu orgulho de ser pensada e planejada por uma companhia da terra da rainha.
A concessionária Econorte promete para dezembro a entrega de uma passarela com pretensões de ser um novo marco arquitetônico da cidade. O canteiro está instalado na frente do Parque de Exposições Ney Braga, no trecho urbano da BR-369, principal ponto de entrada e saída de veículos do município. A intervenção tem orçamento de cerca de R$ 2 milhões. A passarela-portal atende uma exigência do Ministério Público, preocupado com o risco de acidentes no local, principalmente dos participantes dos 140 eventos realizados anualmente no Parque Ney Braga, entre eles a Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, o maior destaque do calendário turístico da região.
As características inusitadas do portal aproximam Londrina de uma tendência de construções curiosas que marcam as regiões mais novas do Estado, à procura de marcos de identificação para os olhos dos forasteiros. A onda pode ser observada nas pequenas cidades e até em centros econômicos importantes, como Apucarana e Cianorte (leia mais nesta edição).
Lembrada sempre pelo espírito crítico e imagem cosmopolita, Londrina ainda resiste a entrar no rol dos lugares que tentam se explicar com um monumento, como se ele fosse um cartão de visitas.
Desde que a arquiteta Camila Oliveira, membro do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico Cultural, começou a liderar um protesto no Facebook contra a obra na BR-369, a Econorte não se posicionou mais sobre o assunto. Procurada pela FOLHA, a concessionária informou, através da assessoria de imprensa, que não vai mais se manifestar sobre a polêmica. "Não somos de maneira alguma contra a passarela. A gente só acredita que eleger um símbolo inglês para uma obra de identificação da cidade não é correto", defendeu Camila. "As torres são símbolos para os ingleses e não para os londrinenses", disparou.
Um abaixo-assinado nas redes sociais com o mote "O Big Ben não nos representa", reunia 642 signatários na última quinta-feira e, mais do que isso, levantava discussões acaloradas que envolvem arquitetura, identidade e até a colonização do Norte do Estado. O documento deve ser encaminhado para a concessionária e para a prefeitura. "Creio que há um fascínio pela Inglaterra por ser um país civilizado, de primeiro mundo. Um lugar que a gente gostaria de ser. Londrina precisa resgatar seu espírito de vanguarda e buscar símbolos originais e contemporâneos", completou.
Enquanto a corrente dos contra tenta se encorpar o suficiente para fazer a Econorte desistir da ideia, os prós também sentiram a necessidade de se manifestar. Em artigo publicado na semana passada na FOLHA, o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Moacir Norberto Sgarioni, escreveu: "Recentemente, para nossa surpresa, surgiu a polêmica nos meios de comunicação, com opiniões contrárias ao projeto, que remete a Londres as homenagens do portal, questionando o mérito dos colonizadores ingleses. Exercendo a democracia, respeitamos as diversas opiniões, mas nos orgulhamos da contribuição que os ingleses nos trouxeram, em especial, o modelo de Colonização do Norte do Paraná que é reconhecido, no mundo todo, como um dos mais eficientes projetos de reforma agrária", defendeu.
A exemplo da Sociedade Rural, outras entidades com reconhecida força política, como a Associação Comercial e Industrial de Londrina, se posicionam a favor do portal com motivos ingleses. O prefeito Alexandre Kireeff (PSD) declarou que a obra "é válida", mas que respeitava a posição dos contrários.
A presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal), Maria Clarice Moreno, também se manifestou após a polêmica. "O pórtico é muito bonito, imponente, tem representatividade sim e é adequado. Por que não Londres? Se já temos referências claras em outros pontos a outros povos, como a Praça Tomi Nakagawa, uma homenagem aos japoneses, e ao portal da Warta, referência aos alemães, não vejo problema em fazer uma menção aos ingleses", afirmou.
"Nas obras do Parque Ney Braga, historicamente, sempre homenageamos familiares de pioneiros como o próprio Willie Davids. Londrina possui construções remetendo ao estilo europeu que já fazem parte do nosso patrimônio histórico", argumentou Moacir Sgarioni no artigo.
Os críticos ao projeto contestam menos a referência aos britânicos e mais a opção pela cópia. "Este episódio ilustra bem o nível cultural em que estamos. É muito triste ver que neste caso a criatividade e a originalidade foram deixadas de lado. Não podemos nos calar porque isso vai se tornar cada vez mais recorrente", afirmou Eduardo Suzuki, professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina.
"Poderíamos fazer uma passarela com uma tecnologia de ponta, que seria de fato marcante na paisagem. Daqui a 100 anos, as pessoas ficarão confusas em relação à idade da passarela. Ela não reflete um tempo, uma época, um período vivido pela cidade. Mas se as pessoas acham uma réplica bonita, não tem como criticar. Isso é uma democracia", ponderou o também professor e arquiteto Antonio Carlos Zanni.
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