As ovelhas de Candói e de Agudos do Sul, no Paraná, tem a ver com os jatinhos da brasileira Embraer, da mesma forma que a carne bovina produzida no Brasil está relacionada com outros jatinhos, os produzidos pela canadense Bombardier. Ovinocultura, tecnologia de ponta e bovinocultura são partes de uma briga comercial travada entre Brasil e Canadá, cuja ponta mais evidente é a Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), popularmente conhecida como doença da vaca louca.
  É que o conflito comercial entre os dois países, agora transformado num dos maiores incidentes já arbitrados pela poderosa Organização Mundial do Comércio (OMC), já é velho. Sucessivos combates travados desde 1996 envolvem as fabricantes de jatos Embraer e Bombardier. Na bovinocultura, uma espécie de golpe de misericórdia foi dado este mês pelo Canadá, que suspendeu a importação de carne bovina brasileira alegando suspeita de contaminação do rebanho brasileiro pela EEB, depois que o País importou animais europeus para melhorar a genética do rebanho nacional.
  No meio disso tudo, um outro embrolho de ordem sanitária sacudiu ainda mais as relações comerciais brasileiras com o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, formada pelo Canadá, México e Estados Unidos). Ovelhas importadas dos Estados Unidos e Canadá pelo Paraná tiveram que ser sacrificadas por estarem contaminadas por uma doença semelhante à da vaca louca, conhecida como scrapie. O diálogo comercial entre os dois países, que já estava arranhado, tornou-se quase insustentável.
  A guerra entre as indústrias de aviação continua e há protestos de ambos os lados a cada novo anúncio de assinatura de contrato envolvendo qualquer uma das duas companhias. Em meados de janeiro deste ano, mais um capítulo da novela foi levado ao ar. Depois que o Canadá anunciou que daria garantias de crédito de cerca de US$ 2 bilhões à Bombardier para assegurar condições favoráveis na disputa pela venda de 75 jatos regionais à Air Wisconsin, dos Estados Unidos, o ministro interino das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampréia, informou que iria apresentar uma queixa formal à OMC contra os subsídios canadenses.
  Em 28 de janeiro, o Canadá revidou, divulgando que soltaria uma lista de produtos brasileiros que iriam sofrer retaliação, amparados por parecer favorável da Organização Mundial do Comércio. No dia seguinte, O Brasil ameaçou fazer o mais amplo ataque à política de subsídios daquele país, questionando não só as facilidades dadas à Bombardier, mas também os incentivos que a província do Quebec dá para o fabricante de aeronaves.
  Foi o bastante para que o Canadá injetasse ainda mais veneno na já estressada relação com o Brasil ao anunciar, em 1º de fevereiro, o embargo à carne bovina nacional. Os Estados Unidos (e o México por osmose) acompanharam a decisão implementaram a medida com recall, ou seja, os produtos brasileiros foram recolhidos dos supermercados americanos.
  Sem nenhuma prova concreta de que a carne bovina brasileira estaria contaminada e sem comunicar antecipadamente a decisão à Organização Mundial do Comércio, os canadenses alegaram que o Brasil havia falhado em responder aos questionários sobre rastreamento da doença no Brasil, solicitados pelo Nafta em 1998. O pedido de rastreamento foi feito porque o Brasil importou animais vivos da Alemanha e da França, onde foram detectados focos de vaca louca. O governo canadense afirmou que a medida não tinha nenhuma relação com o conflito entre as fabricantes de jatos, ainda que a medida tenha sido levada à cabo um dia depois do Brasil ter conseguido bloquear uma medida contra o Programa de Incentivo às Exportações (Proex) na OMC.
  Neste ponto, o Brasil titubeou e a missão oficial canadense que chegou ao País na última semana se pautou justamente neste detalhe. Até o momento, as autoridades brasileiras ainda trabalham para concluir o trabalho de contagem das reses que foram importadas dos países europeus entre as décadas de 80 e 90. Já foi divulgado que o total de cabeças chegava a pouco mais de quatro mil, mas este número pode ultrapassar a casa de seis mil reses. No Paraná, dados extra-oficiais dão conta de que existem cerca de 700 europeus importados nas duas últimas décadas.
  A contribuição canadense para a balança comercial brasileira é irrisória e o que preocupa as autoridades brasileiras é o mercado americano. Com o embargo, os prejuízos calculados podem chegar a US$ 100 milhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Outro ponto é o prejuízo causado à marca da carne brasileira noutros mercados mundiais, sobretudo na Europa. Com a vaca louca se alastrando pela Europa, o País teria condições de ocupar espaço no continente, oferecendo um produto de melhor qualidade e com preço menor.
  A tática da diplomacia brasileira agora é pressionar as autoridades canadenses a acabarem com o embargo. O presidente Fernando Henrique Cardoso já deu um últimato ao governo canadense e espera que a suspensão tenha fim em 15 dias (a contar do dia 12 de fevereiro). Caso contrário, poderá se ausentar da cúpula de Quebec, que discutirá a implementação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
  Afora o problema provocado com a suspensão das importações de carne bovina brasileira pelo Canadá, outro caso de contaminação por doença similar à EEB abalou a posição nacional. Uma moléstia, cujo nome científico é Paraplexia Enzoótica, ou scrapie, provocou o sacrifício de 365 animais no final de janeiro – 290 em Candoí e 75 em Agudos do Sul, ambos no Paraná. A doença foi diagnosticada em três ovelhas de Candói en animais importados do Estados Unidos e Canadá.
  A contaminação, assim como a da vaca louca, se deu com a ingestão de ração de origem animal contaminada. Correntes da comunidade científica argumentam que a scrapie deu origem à EEB nos bovinos. A suspeita das autoridades sanitárias brasileiras é de que a doença pode ter chegado com as fêmeas importadas dos Estados Unidos, na década de 90.
  A notícia de scrapie nos rebanhos ovinos paranaenses reacendeu a preocupação internacional sobre a probabilidade, mesmo que remota, da doença da vaca louca aparecer nos rebanhos bovinos nacional. Coincidentemente – ou não – o anúncio do embargo canadense à carne bovina brasileira foi anunciado poucos dias depois à detecção da Paraplexia Enzoótica em ovelhas.

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