A indiazinha de 5 anos de idade, órfã de pai e mãe, era obrigada a acompanhar os membros da tribo carregando pesadas cestas de frutas. Por causa do peso, sempre ficava para trás. A cena teria comovido o fazendeiro, que convenceu os índios a doar a menina para ser criada entre os brancos. Hoje com 50 anos, Maria Rosa Brasil Tiguá é um dos oito índios xetás que sobreviveram ao massacre da pequena tribo selvagem, descoberta no final dos anos 40 no Noroeste do Paraná, quando começou a colonização da região. É a única que ainda vive na região e ganha a vida trabalhando como empregada doméstica em Umuarama, para onde se mudou há quatro anos porque não conseguia trabalho em Douradina (85 quilômetros ao norte de Umuarama ), cidade onde cresceu.
Quarenta e cinco anos depois, Tiguá está prestes a fazer o caminho inverso; voltar a viver no campo junto com seu povo. No final do ano passado, o governo do Paraná e a Fundação Nacional do Índio (Funai) assinaram convênio para demarcar terras para os xetás, talvez na própria região onde viveram. A professora da Universidade Federal do Paraná Carmem Lúcia da Silva coordena uma comissão que vai pesquisar áreas para a reserva. Segundo Carmem, toda a região registrada inicialmente como Núcleo Serra dos Dourados (onde hoje estão o distrito de Serra dos Dourados e os municípios de Umuarama, Douradina e Ivaté) pertenciam aos xetás. ‘‘Eles é que decidirão se querem a reserva nas terras de origem’’, adiantou Carmem.
Quando observa as pastagens no lugar das florestas onde seu povo viveu, Tiguá relembra passagens da infância na selva, mas não gosta muito de falar sobre as recordações. Sabe que os pais morreram de doença e lembra vagamente que tinha de carregar cestas de frutas. E só. A única remanescente xetá na região cresceu na Fazenda Santa Rosa, em Douradina. Foi criada pelo administrador da fazenda, o pioneiro Antônio Lustosa de Freitas, falecido em abril de 1991. Primo do deputado estadual Afrânio Lustosa de Oliveira, Freitas chegou à região em 1952 para abrir as terras do deputado.
Foi o primeiro a manter contato com os índios e ganhou fama de protetor dos xetás. Segundo as filhas de Freitas, Neuraci e Nilda, depois de um grande susto, o pai delas ganhou a confiança de um grupo de xetás e conviveu alguns anos com eles. Os Freitas apenas ouviam falar dos índios até que no dia 6 de dezembro de 54 seis homens chegaram à sede da fazenda desarmados, porém nervosos e ameaçadores. Segundo Neuraci, Freitas contava que o acaso evitou uma tragédia. Ele andava sempre armado e, dois dias antes, teve seu revólver apreendido pela polícia quando fazia compras no povoado de Maria Helena e se envolvera numa discussão. Se estivesse armado, Freitas poderia ter atirado nos índios para proteger sua família. ‘‘O primeiro impulso dele foi se armar com um pedaço de madeira’’, conta a filha.
‘‘Depois, meu pai teve a idéia de oferecer mantimentos e colocou no terreiro sacos de açúcar e farinha de trigo. Os índios provaram, gostaram e levaram tudo embora’’. Alguns dias depois voltaram e um grupo de aproximadamente 60 índios passou a acampar periodicamente perto da sede da fazenda e começou a conviver com os brancos. Freitas oferecia alimentação, roupas e trabalho para os xetás. A família acabou adotando duas indiazinhas, ambas chamadas de Tiguá, que na língua xetá significa menina. A outra tiguá foi criada por uma filha de Freitas, Nilda, e hoje mora em São Paulo. Freitas também criou um menino, primo de Maria Rosa Tiguá, que morreu de pneumonia aos 20 anos.
Segundos as irmãs Freitas, as índias faziam um fio a partir do caraguatá, uma planta parecida com o abacaxi, com o qual fabricavam cestos, tangas, armas e enfeites corporais. ‘‘A gente ficava admirada com a técnica e a habilidade delas’’, diz Nilda . Também faziam utensílios com pedra lascada e madeira e produziam fogo esfregando pedaços de pau. Não eram índios guerreiros e viviam da caça e coleta de frutas. Não existem relatos de ataque aos brancos.
Enquanto as duas indiazinhas assimilavam o modo de vida dos brancos, os outros xetás desapareciam rapidamente. Até hoje, não se sabe ao certo o destino da maioria deles. A tribo, estima-se, teria cerca de 450 membros espalhados por diversas aldeias, e foi dizimada em menos de 20 anos. O processo de expulsão e extermínio teria se acelerado depois que o governador Moisés Lupion assumiu e repassou à Cobrinco, colonizadora do grupo Bradesco, a concessão para colonizar as terras do Núcleo Serra dos Dourados, cassando o direito da colonizadora anterior, a Suemitsu Miyamura. Segundo relatos de pioneiros, a Miyamura demonstrava preocupação em preservar os xetás e chegou a sugerir na época a criação de uma reserva.

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