Em 8 de dezembro do ano passado, dezenas de torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco da Gama brigaram nas arquibancadas da Arena Joinville (SC) durante partida válida pela última rodada do Campeonato Brasileiro. As imagens de violência repercutiram em todo o mundo e geraram os discursos indignados de sempre: a necessidade de providências, de pensar na extinção de torcidas organizadas, estabelecer punições mais rígidas para os brigões dos estádios... A presidente Dilma Rousseff (PT) anunciou que havia conversado com o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e defendeu a criação de uma delegacia do torcedor.
No último domingo, dia 24 de agosto, o Atlético cumpriu a última partida da pena que recebeu da Justiça Desportiva pela participação de seus torcedores na briga, ao jogar contra o Bahia na Arena da Baixada, em Curitiba, com portões fechados. Vale lembrar que o time paranaense só disputou aquela fatídica partida contra o Vasco em Joinville porque já havia sido punido por mau comportamento de seus seguidores.
Em dezembro de 2009, o futebol paranaense já havia protagonizado um vexame de alcance internacional, quando torcedores do Coritiba depredaram o Estádio Couto Pereira após o empate com o Fluminense que rebaixou o time curitibano para a Série B do Brasileiro.
Críticas e reclamações parecidas com as registradas no final de 2013 haviam sido proferidas naquela ocasião. A repercussão gerou mudanças no Estatuto do Torcedor, por meio da Lei nº 12.299, de julho de 2010, que estabeleceu medidas de prevenção e repressão à violência: cadastramento de integrantes de torcidas organizadas, banimento por três anos de organizadas que participarem de brigas, prisão de um a dois anos e banimento dos estádios de três meses a três anos para cidadãos envolvidos em tumultos e/ou que invadirem o campo de jogo.
Mesmo assim, poucos anos depois, a torcida do maior rival coxa-branca participou de um episódio de proporções semelhantes às do tumulto do Couto Pereira. E agora, quase nove meses após a batalha de Joinville, situações de violência no futebol continuam sendo registradas em todo o Brasil. Quatro casos de repercussão nacional ocorreram somente nas últimas semanas (veja gráfico).
"Quando acontece um fato extremo, como o ocorrido em Joinville, as autoridades falam que vão mudar, punir. Mas na prática nada muda. Passa aquela onda, o assunto sai da ordem do dia, e as medidas efetivas que poderiam controlar e prevenir essas situações não são tomadas", afirma o sociólogo Maurício Murad, pesquisador do tema.

"Multifacetado"
Ele acredita que a violência de torcidas é realmente difícil de ser enfrentada, por ser "um problema multifacetado", mas acredita que os governos não conseguem dar o primeiro passo para confrontá-la. "Falta competência para estabelecer um plano estratégico nacional e falta vontade política para cumprir as leis. A Constituição Federal diz que o esporte é um direito do cidadão e a segurança, um dever do Estado", afirma Murad. O sociólogo argumenta que já existem leis suficientes para coibir a violência – o que falta é aplicá-las.
"As leis sempre podem melhorar. Elas devem atender à realidade, que é dinâmica. Mas a legislação que temos para essa questão é boa. Temos o Estatuto do Torcedor, a lei do crime organizado, o Código Penal, o Código de Defesa do Consumidor e a própria Constituição Federal. O que falta é a aplicação da lei. Temos que punir severa e exemplarmente os transgressores. Mas apenas a repressão não é suficiente. É necessário prevenir. As torcidas organizadas costumam marcar brigas por meio das redes sociais. As autoridades têm que rastrear isso, identificar os pontos de conflito e agir para evitar. E, a longo prazo, todos os envolvidos, Estado, federações, clubes, jogadores, devem fazer um projeto de reeducação para que não aconteçam mais brigas de torcida", explica.

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