Quando eles nascem, rechonchudos e rosados, não passa pela cabeça da maioria dos pais que aquele bebezinho fofo vai consumir, ao longo dos próximos anos, uma parte significativa da renda da família. Fraldas descartáveis, roupas, materiais de higiene, alimentos, escolas, cursos, viagens, plano de saúde, passeios, festas de aniversário, materiais didáticos, transporte e brinquedos são parte de uma lista de "necessidades" que só aumenta conforme passam os anos. Pesquisa realizada por Adriano Maluf Amui, presidente do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent), aponta que tais despesas variam de acordo com a renda. Enquanto uma família de classe A chega a investir R$ 2 milhões no filho até a idade adulta, a classe D, que ganha menos de R$ 2 mil por mês, totaliza modestos R$ 53 mil de investimento nos primeiros 23 anos de vida da prole. Especialistas ouvidos pela FOLHA alertam que a capacidade financeira não deve ser considerada como único critério para garantir o pleno desenvolvimento dos filhos.
A pesquisa da Invent, divulgada neste ano, foi realizada com mais de 350 pessoas distribuídas em diversas cidades brasileiras, incluindo capitais e interior. Além dos dois extremos já citados, o pesquisador identificou que a classe B, cuja renda varia entre R$ 6 mil e R$ 25 mil, pode investir mais de R$ 900 mil na empreita de criar um filho. Já a classe C, que representa famílias com renda de R$ 2 mil a R$ 6 mil, gasta um limite de R$ 400 mil até a idade adulta.

Alimentar e educar

A diferença entre as prioridades de cada classe fica evidente tanto no valor investido em cada item avaliado quanto no volume de produtos e serviços adquiridos. Enquanto a classe A chega a consumir R$ 4,3 mil por ano com a alimentação de uma criança de 6 anos, por exemplo, o valor cai para R$ 3,6 mil na classe B, R$ 1,4 mil na classe C e R$ 960 na classe D.
As duas classes mais abastadas gastam com berçário e educação fundamental desde os primeiros anos de vida, podendo chegar a uma despesa de R$ 9,6 mil anuais antes mesmo da criança fazer o primeiro aniversário. Na classe C, o investimento em escola particular aparece após os 11 anos e atinge R$ 10,8 mil por ano apenas na idade universitária. Na classe D, essa despesa simplesmente não faz parte da realidade das famílias. Cursos extras, mesada, transporte, academia, viagens e planos de saúde são outros itens que aparecem na mais tenra idade das crianças mais ricas e não fazem parte de qualquer época das menos privilegiadas financeiramente. As festas de aniversário, que simbolizam um significativo gasto "supérfluo" nas famílias, também chamam a atenção pela distorção de valores: enquanto na classe A variam de R$ 6 mil a R$ 12 mil, não passam de R$ 400 na classe C e inexistem nas famílias de classe D.

Supérfluo e essencial

A economista Ana Paula Mussi Szabo Cherobim, coordenadora do Programa de Extensão de Educação Financeira da Universidade Federal do Paraná (UFPR), alerta que os pais devem ficar atentos para não sucumbirem a "exageros". "É bobagem sofrer porque não pode pagar muitos cursos e atividades."
Ana Paula ressalta que, na fase de bebê, os gastos começam com o enxoval e as fraldas descartáveis. "Conforme a renda, é também o momento de fazer um plano de saúde", diz. Nesta fase, os "exageros" vêm na forma de cursos. "Os muito pequenos não precisam de balé, judô ou inglês. Vale mais a pena investir em atividades lúdicas", ensina.
Na idade escolar, a economista lembra que é o momento de iniciar a educação financeira. "Mesada deve ser oferecida a partir do momento em que as crianças aprendem a fazer contas", completa. A escolha da escola, no caso das particulares, implica em considerar as condições financeiras. "Nem sempre os colégios mais caros são os melhores", avisa, enfatizando que as escolas cujas mensalidades são altas costumam impor um estilo de vida que não é acessível para a maioria da população.
Realista, Ana Paula afirma que mesmo na escolha do curso universitário o critério financeiro precisa ser levado em conta. "Se a família não tem condições de arcar com o curso escolhido, é preciso considerar se o esforço e o investimento vão valer a pena", avisa.

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