Oportunidades para quem ficou
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sábado, 05 de setembro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Quando os patriarcas da família Spagolla chegaram a Santa Mariana na primeira metade do século passado, o investimento na exploração da madeira configurou-se como uma boa opção para sustentar a família. Com o passar do tempo, porém, o negócio não foi suficiente para a sobrevivência dos filhos e netos. Quem decidiu ficar na cidade passou a investir em outros ramos do comércio e dos serviços. Muitos jovens, porém, decidiram sair em busca de oportunidades em outros lugares. Hoje, eles engrossam as estatísticas que colocam o município entre os que diminuíram no Paraná. Com 12.432 habitantes, Santa Mariana perdeu pouco mais de 1% da população no último ano.
Quem conta a história é a professora aposentada Marilda Spagolla, de 64 anos, que atualmente é secretária de Cultura do município. Ela mesma teve que sair da cidade para concluir os estudos, que realizou em Assis (SP), porque não havia opções na região. "Depois passei em um concurso e acabei ficando por aqui", conta. Ela observa que muitas pessoas da própria geração permaneceram na cidade. "Os mais jovens, porém, acabam saindo para trabalhar ou estudar", diz a educadora, que se considera uma "sobrevivente" em Santa Mariana junto com cinco dos seis irmãos. "O hospital foi reaberto no município e temos lazer. É uma boa cidade para morar", opina.
Sobre o terreno da antiga madeireira da família, a segunda geração da família edificou uma casa, uma pizzaria e uma escola. Antônio Carlos Spagolla, de 52, e Maria Augusta Sorace Spagolla, de 49, são os donos da pizzaria que funciona há mais de 20 anos e atende a população da região. Os dois também oferecem um serviço de buffet que atende eventos e é bastante tradicional. A filha deles, Stella Spagolla, de 25, é psicóloga. Além de prestar serviços para o município, onde é concursada, também atende pacientes na clínica construída ao lado do negócio dos pais, no terreno da antiga madeireira.
Antônio Carlos e Maria Augusta avaliam que os negócios na área de alimentação vão bem porque Santa Mariana é próxima de Cornélio Procópio e Bandeirantes, dois centros universitários que geram movimento na cidade. "No início, pouca gente apoiou nosso empreendimento. Mas hoje somos bem conhecidos", comemoram eles, que buscam serviços de saúde, educação e lazer nos centros próximos e até mesmo em Londrina. "Estar perto de cidades maiores facilitou nossa permanência aqui", admitem.
Stella, por sua vez, fez faculdade em Londrina, onde morou durante a graduação.
Apegada à família e aos amigos, porém, decidiu voltar para a cidade natal assim que teve uma oportunidade. "Sou tranquila e gosto da vida na cidade pequena. O serviço público é uma opção para os jovens que querem permanecer nos menores municípios", considera.
A pedagoga Rosemeire de Paula Spagolla, de 50, alimentava desde os tempos em que cursou o magistério o sonho de ter uma escola. Teve que sair de Santa Mariana para fazer faculdade, mas voltou para transformar o sonho em realidade na cidade de origem. "Tive oportunidade de abrir a escola em outros lugares, mas preferi continuar aqui", conta ela, que hoje é dona de uma instituição de educação fundamental que atende até o 9º ano. "Existe um pedido dos pais para oferecermos ensino médio, mas não acho que seja a hora de dar esse passo", considera.
Os filhos de Rosemeire saíram de Santa Mariana. Gustavo estuda Engenharia Civil em Londrina e, segundo a mãe, pretende voltar à terra natal assim que for possível . "Vou apoiar se ele quiser retornar, pois sei que tem vínculos fortes com parentes e amigos. Mas não incentivo, pois acho que fora daqui existem mais oportunidades", analisa. Rodrigo deu um passo ainda maior e, atualmente, mora na Itália com a esposa. "Ele é aventureiro e tinha muita vontade de conhecer outros lugares. Assim que surgiu uma oportunidade, viajou", conta ela, destacando que o filho é formado em Administração e que, nesta área, não existem muitas possibilidades em Santa Mariana. "Por enquanto ele não pensa em voltar."
Laura Carolina Spagolla Matter, de 28, também tinha vontade de experimentar a vida em outros lugares. Ela fez os dois primeiros anos do ensino médio em Cornélio e, no último ano, foi para Londrina terminar esta fase e cursar a faculdade de Farmácia. "Até pensava em morar fora, mas meu pai faleceu e vim ajudar meus irmãos com os negócios da família", conta. A jovem chegou a ter uma farmácia, mas preferiu ajudar o irmão a tocar o depósito de materiais de construção. "Abrimos também um serviço de transportes e decidi deixar a farmácia para ajudá-lo, até porque é mais tranquilo", relata.
Laura admite que não gosta do clima pacato de Santa Mariana, mas destaca que não pode abrir mão das oportunidades que o município ofereceu. "Vamos muito a Londrina, onde tem mais lazer", conta ela, que também busca atendimento em saúde nas cidades maiores da região.
José Eduardo Spagolla Gabriel, de 30, também enxergou oportunidades na cidade natal e resolveu voltar de Curitiba, onde cursava a faculdade, para abrir um bar e petiscaria. A cidade não tinha muitas opções de lazer e ele enxergou neste mercado uma boa possibilidade de ganhar a vida sem ter que permanecer nos grandes centros. "Me mantenho porque tenho muitos clientes da região", conta. Ele é o único entre os irmãos que permaneceu em Santa Mariana. Paulo Eduardo foi estudar em Curitiba aos 15 anos e ficou por lá. Carlos Eduardo, por sua vez, foi para a Itália com o primo. "Eles preferem cidades maiores, ao contrário de mim, que adoro morar aqui", conta.
Arthur Henrique de Souza Spagolla, de 35, estudou o ensino médio e a graduação em Engenharia Agronômica em Cornélio Procópio e Bandeirantes, mas preferia viajar todos os dias a se mudar de cidade. Hoje, ele trabalha nas terras da família e também tem um posto de gasolina. "Só permaneci na cidade porque o tipo de negócio que temos é viável aqui. A cidade não gera dinheiro, tudo acontece em torno da agricultura", analisa.


