Onze tremores que abalaram Londrina
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domingo, 31 de janeiro de 2016
Celso Felizardo<br> Reportagem Local 
No dia 14 de dezembro, a terra tremeu na zona leste de Londrina, especialmente região do Jardim Califórnia. O relógio marcava 6h16 de uma manhã de segunda-feira em que muitos moradores se preparavam para iniciar mais uma semana de trabalho. O abalo sísmico, de 1,8 de magnitude, foi o primeiro a ser identificado pela Rede Sismográfica Brasileira, mais precisamente pela estação de Fartura (SP), a 160 quilômetros de Londrina.
Os moradores, porém, disseram que os tremores começaram dois dias antes, no sábado. Os relatos apontam um grande estrondo, como o de um trovão e, em seguida, o tremor - que balançou toda a casa do professor aposentado Fernando Prado de Andrade, segundo o próprio.
Do primeiro tremor ao último, que evacuou o prédio do Fórum de Londrina no último dia 21 , foram 11 abalos registrados pelos sismógrafos locais e da rede nacional.
A apreensão inicial cresceu e começou a ganhar ares de pânico entre os moradores do Califórnia. Diante do mistério, cada um parecia ter uma explicação para os tremores nas ruas: de exploração de xisto, explosões causadas por gases de um antigo lixão, atividade vulcânica, até a mais cotada pressão acima do normal nas tubulações da Sanepar.
A pedido do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) enviou para Londrina, no início do ano, quatro sismógrafos para mapear os abalos com mais precisão. Na sexta-feira, dia 22, depois de 15 dias de medições, os especialistas cravaram: "Os estrondos ouvidos e sentidos em Londrina não são explosões e sim pequenos tremores de terra com foco na camada de rocha basáltica, abaixo da camada de solo. Os tremores são causados pelo deslocamento repentino, de apenas alguns milímetros, de bloco de rocha ao longo de fraturas geológicas".
O geólogo da UEL João Paulo Pinese explica que, na região, a camada do solo composto de latossolo e nitossolo - popularmente conhecidos como terra roxa - atinge, no máximo, 25 metros de profundidade. Logo abaixo, encontra-se a camada de rocha basáltica, também chamada de estrutura compacta, que se estende até os 900 metros de profundidade. "É justamente na rocha que está o problema. Ainda não sabemos com precisão a profundidade dos tremores de Londrina, mas tudo indica que seja algo entre 150 a 200 metros", calcula.
Se encontrar o ponto vertical exato de onde os tremores são gerados é um desafio para os geólogos, encontrar a horizontalidade dos epicentros - latitude e longitude - também não é tarefa fácil. Pinese explica que, hoje, os estudos trabalham com um margem de erro de 200 metros do ponto exato do epicentro. "Queremos refinar isso, pois se diminuirmos essa margem para 10 metros, ou até zerarmos, poderemos constatar se há um único epicentro no Jardim Califórnia, ou se há mais de um", detalha. "Hoje o mapa nos mostra uma 'pipoca' de epicentros sob o Califórnia", completa.
Segundo ele, uma constatação importante é que o tremor registrado no Jardim San Fernando, no dia 12 deste mês, com magnitude de 1,6, tem epicentro diferente dos outros 10 registrados no Jardim Califórnia. "O que já está certo é que o do San Fernando não tem o mesmo epicentro dos outros 10 tremores. Como tudo aponta para causas naturais, temos duas famílias geologicamente diferentes atuando. Uma que agrupa no San Fernando e outra no Califórnia."
Pinese informou que, cientificamente, não há como descartar que uma movimentação de rocha possa ser causada por ação humana, mas segundo ele, teria que haver uma ocorrência grandiosa para isso. Para comparar ele usou o exemplo da detonação de uma bomba nuclear: "A bomba detonada pela Coreia do Norte há algumas semanas com certeza causou impactos lá. O abalo foi sentido em todo o mundo pelos sismógrafos".
O geólogo diz lamentar a angústia dos moradores das áreas afetadas, mas informa que o refinamento dos dados, que deve ocorrer nas próximas semanas, enquanto os sismógrafos da USP permanecerem em Londrina, terão maior relevância científica. "Se a origem dos tremores fosse no solo, poderíamos procurar uma solução, mas na rocha não há o que fazer, apenas esperar que se acomodem."


