ONDA MIGRATÓRIA Paraná já tem mais de mil haitianos
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sábado, 25 de maio de 2013
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Há um ano e meio no Brasil, os haitianos Rondy Lorméus, de 27 anos, e Jules Presno, de 31, chegaram a Londrina após terem sido recrutados por uma rede de supermercados. Na época, estavam em São Paulo, mas, como milhares de conterrâneos, entraram no País através do Amazonas, em busca de oportunidades para superar as dificuldades impostas pelo terremoto que assolou a ilha.
Lorméus trabalhava como motorista e carpinteiro no Haiti. Presno, formado em engenharia de telecomunicações, atuava como professor. Depois do terremoto, ficamos sem trabalho, sem casa, sem nada, por isso viemos ao Brasil, contam eles, que acabaram de receber o jornalista Jules Bellanor, de 25, e o técnico em informática Pierremond Salomon, de 26, que também deixaram o país de origem por não conseguirem empregos e meios para sobreviver.
Em Londrina, eles não encontram dificuldades para arrumar trabalho. A documentação também é fácil de ser obtida, graças às facilidades concedidas pelo visto humanitário aos cidadãos haitianos. Os dois trabalhadores há mais tempo no Brasil, porém, estão sem emprego por enfrentarem dificuldades para alugar uma casa para morar. É mais fácil achar trabalho do que uma casa, reclamam eles, que moram temporariamente com outro haitiano por não conseguirem cumprir a burocracia exigida nos contratos de aluguel, incluindo a apresentação de um fiador.
Apesar das dificuldades, nenhum deles tem planos de voltar a morar no Haiti. Mensalmente, mandam dinheiro para os familiares que permaneceram na ilha e Presno, o único casado, planeja trazer a esposa e o filho para Londrina. Para isso preciso ganhar dinheiro, diz.
A experiência de Hilaíre Dieusait, de 36, um haitiano que está no Brasil há seis meses, é um pouco diferente. Advogado, jornalista, professor de línguas com fluência em inglês, francês e espanhol, ele tinha uma escola de línguas no Haiti, que foi destruída com tudo mais que ele possuía durante o terremoto. Sem ter onde trabalhar, decidiu procurar outro lugar para morar. Depois de ter tido a mala e o dinheiro roubados na República Dominicana, onde passou nove meses dando aulas para conseguir mais recursos, ele chegou ao Brasil com a promessa de um trabalho compatível com a formação.
Acabou recrutado por uma indústria metalúrgica de Campo Grande (MS), onde não se adaptou à rotina de chão de fábrica. Depois de passar por outro emprego em uma empresa de eletrecidade, chegou a Londrina há algumas semanas e, graças a uma indicação da Polícia Federal, começa amanhã a trabalhar no atendimento de migrantes na Cáritas de Londrina, atuando inclusive como tradutor.
Passei os últimos 13 anos ensinando. Foi dífícil me adaptar, mas aceitei os primeiros empregos que me ofereceram porque, quando não se tem nada, é preciso fazer tudo, conforma-se. Animado com a oferta da Cáritas, ele espera aproveitar a oportunidade. Também quero continuar estudando. É importante ter um diploma brasileiro para conseguir colocações melhores, acredita ele, que mensalmente manda dinheiro para os familiares no Haiti.
Os cinco entrevistados desta reportagem integram um grupo de quase mil pessoas que formam a colônia haitiana no Paraná. Ao Estado, eles chegam normalmente trazidos por empresas que recrutam mão de obra nos estados da região Norte do Brasil. Aqui, trabalham na indústria moveleira, nos frigoríficos, na construção civil e no setor de serviços, conforme informações de José Carlos Gedial, do Cerm.
Eles entram no País com visto humanitário, o que facilita a legalização do processo. A maior dificuldade é que não conseguem comprovar qualificação profissional porque perderam todos os documentos durante os terremotos. Por isso, também não conseguem retomar os estudos, explicou ele.
Lucia Bambberg, agente da Pastoral do Migrante em Curitiba e que atua em toda a região Sul, acrescentou que o fluxo de haitianos aumentou no último ano e, inclusive, começa-se a notar a chegada de mulheres e crianças, proporcionando a reunião de famílias. Esses migrantes chegam com muita dificuldade, geralmente com poucos pertences e a roupa do corpo. Eles buscam um local para ficar e têm muita vontade de trabalhar, relata. Em Londrina, a Cáritas atendeu pelo menos 50 haitianos desde o segundo semestre de 2012.


