A cada ano, cerca de 300 mil mulheres perdem suas vidas em todo o mundo por causas relacionadas a gestação, parto e puerpério. "Essas mortes são apenas a ponta de um 'iceberg', onde existe muita morbidade e muito sofrimento. Estima-se que mais de dois milhões de mulheres em todo o mundo passem por complicações muito graves, a cada ano, relacionadas com gestação, parto e puerpério", afirma
João Paulo Dias de Souza, professor associado do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo o médico, que já trabalhou na Organização Mundial da Saúde (OMS), a instituição reconhece a prática deste tipo de violência e tem publicado revisões sistemáticas sobre o tema nos últimos anos. Não utiliza, porém, o termo "violência obstétrica", mas prefere falar de "desrespeito, abusos e maus-tratos" durante a assistência ao parto. A escolha busca tirar o foco do problema apenas dos obstetras. Para Souza, a discussão extrapola a área de saúde e entra no espectro dos direitos humanos, relacionando-se com questões de igualdade de gênero, acesso à renda e à educação.
Uma revisão da OMS, de 2014, baseada em estudos em mais de 30 países, identificou globalmente que o desrespeito, abusos e maus-tratos vão de situações extremas, como o abuso físico, o uso da força e a contenção física, incluindo a prática de prender os braços da mulher durante a cirurgia cesariana, a situações mais sutis que ainda assim constituem desrespeito e abuso, relacionadas por exemplo, à linguagem e à maneira de tratar as mulheres.
No Brasil, o médico reflete que algumas práticas, quando realizadas de forma rotineira e desnecessária, podem indicar a submissão da mulher a algum grau de desrespeito ou abuso. Como exemplo, cita procedimentos como internação precoce; indução do trabalho de parto sem indicação médica e sem autorização da mulher; impedir a presença do acompanhante durante o parto; impor repouso no leito; a questão da tricotomia e do jejum; e não oferecer métodos de alívio da dor.
Um outro exemplo de procedimento que é muito utilizado e problematizado é a episiotomia, que consiste em um corte no períneo da parturiente.
"As evidências vêm mostrando que na verdade a episiotomia é muito mais prejudicial do que algo que contribui para um desfecho favorável", alerta.
Outra revisão sistemática recente, conduzida pela OMS, mostra que as situações relacionadas a desrespeito, abusos e maus-tratos constituem uma barreira importante para que mulheres procurem instituições para a assistência ao parto. No Brasil, onde há uma porcentagem muita alta de cobertura hospitalar ao parto, a demanda de mulheres que querem ter o parto em casa com uma assistência não centrada no médico é crescente porque elas têm medo de sofreram violência no hospital. Por isso, para a OMS, enfrentar a questão do desrespeito, abusos e maus-tratos nas instituições de saúde é fundamental para melhorar a assistência obstétrica e manter e trazer mais mulheres para esses locais. (C.A.)

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