OCUPAÇÕES URBANAS - O povo invadia e a Cohab loteava
Conjunto habitacional entre os mais antigos de Londrina, o Jardim Pindorama, na zona leste, foi construído na década de 1970 para abrigar a população de uma das primeiras invasões da cidade: a antiga "Vila do Grilo", localizada na região onde hoje funciona a Rodoviária. Quem conta é a aposentada Lourdes da Silva Rosa, de 68 anos, que se instalou no local depois de deixar a propriedade rural onde morava e trabalhava com a família, na década de 1960. "Minha irmã veio primeiro", conta ela, que por muito tempo viveu sem energia elétrica e sem água na localidade tomada pelo barro. "Os moradores pagavam a conta de água de uma mulher, que deixava a gente ir lá buscar água para cozinhar, lavar roupa, tomar banho. Depois de um tempo, meu irmão fez um poço na nossa casa", recorda.
Acostumada a viver em condições parecidas na zona rural, a dona de casa não achava que a rotina do Grilo era mais sofrida que o normal. Naquela época, ninguém da família imaginava que poderia ser contemplado com uma casa em conjunto habitacional, o que aconteceu em 1972. "Saímos no segundo dia de desocupação, a casa era muito melhor", conta ela, que por décadas pagou as suadas prestações antes de conquistar a sonhada casa própria.
Do outro lado da cidade, Joanita Lopes da Silva, de 53, guarda na própria história o fato de ter sido uma das primeiras moradoras do conjunto União da Vitória, onde construiu uma casa após conquistar um terreno no local na época em que a Cohab regularizou a invasão, há mais de 25 anos. Ela se mudou para o atual conglomerado de bairros com o marido e dois filhos, para fugir do aluguel que consumia quase toda a renda da família. "Meu marido era doente e eu sustentava a casa trabalhando como diarista", revela.
A iniciativa de participar da invasão do terreno onde, no futuro, seria instalado o União da Vitória, foi incentivada por um cunhado, que veio do Mato Grosso e se instalou em um barraco. Ela lembra que os primeiros a chegar foram um grupo de trabalhadores sem-terra. "Eles foram puxando o povo", relata.
Naquela época, Joanita já tinha a percepção de que invadir o terreno seria o jeito mais fácil de conseguir a casa própria, o que de fato aconteceu. "A Cohab loteou a área e doou a madeira para a gente construir as casas. Paguei tudo em 40 parcelas", comemora. Nos anos seguintes, a mesma estratégia continuou sendo usada por novos moradores. "O povo invadia e a Cohab loteava. A pressão resolve", resume Joanita, que tem recordações, também, do sofrimento que é a vida em uma invasão. "Não tinha água, não tinha ônibus, não tinha nada. A gente dependia do caminhão-pipa." (C.A. e L.F.M.)





