OCUPAÇÕES URBANAS - Cidas representam ocupantes das invasões
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domingo, 09 de fevereiro de 2014
Carolina Avansini e Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Em três invasões visitadas pela reportagem da FOLHA na última semana na zona norte em Londrina, a esperança tem o mesmo nome: Cida. Coincidentemente, três mulheres que levam o nome da santa padroeira do Brasil, Aparecida, foram apontadas como as porta-vozes dos movimentos que, segundo os entrevistados, não possuem líderes. Duas delas são as responsáveis, também, por organizar os manifestantes e fazer a mediação dos moradores com a Cohab.
A vice-presidente da Associação de Moradores do Jardim dos Campos, Maria Aparecida Rodrigues dos Santos, de 40 anos, é a liderança que está apoiando os invasores do fundo de vale do Jardim Primavera. Dona de uma residência no bairro, ela foi uma das primeiras moradoras a participar da invasão que deu início ao loteamento do Jardim Primavera, há 16 anos.
"Fomos a terceira família a chegar", conta ela, que não considera a falta de conforto dos barracos instalados na beira do córrego capaz de fazer os invasores desistirem de permanecer no local. Ela mesma, quando reivindicava o próprio terreno onde construiu a casa em que mora, passou oito meses em uma invasão no fundo de vale do córrego Sem Dúvida. "Minha filha era bebê e chegou a ser levada pela enxurrada. Sai correndo e consegui salvar", relata, quando questionada sobre os momentos mais difíceis daquele tempo.
A conquista de um teto valeu as dificuldades. Tanto que ela, mãe de três filhos, incentivou dois deles a se instalarem em barracos na tentativa de conseguir uma moradia. Sobre o movimento, ela relata que foi organizado espontaneamente, influenciado pelos invasores que começaram a se instalar em um terreno particular no Jardim São Jorge. "Já ajudei a construir uns dez barracos. Tento organizar para não virar tumulto", diz, reforçando que é motivada pela vontade de ajudar os que precisam. "São pessoas com histórias de vida de sofrimento", avalia.
No mesmo fundo de vale, mais próximo ao bairro Maria Cecília, Maria Aparecida Lopes é a responsável por organizar as quase 200 famílias que se instalaram no local na tentativa de pleitear uma casa. "Todo dia chega gente nova. Se tiver espaço, é só montar o barraco", revela, enfatizando também que o movimento não tem liderança. "Fui escolhida para organizar porque tenho escrita e já trabalhei para alguns advogados", justifica.
Como grande parte dos ocupantes do terreno, ela decidiu invadir a área porque "mora de aluguel". "O valor aumentou demais. Tem gente aqui com aluguel atrasado, sofrendo despejo. Assim não dá para viver", reclama.
Apesar de saber que o local é uma área de preservação ambiental que não pode abrigar residências, Cida reforça que eles não vão sair enquanto a Cohab não apresentar uma solução. "Não precisa ser aqui, queremos uma casa em qualquer lugar."
Na invasão anexa ao conjunto São Jorge, o amontoado de barracos foi batizado de Bom Jesus por Aparecida Paulino, de 65, a porta-voz dos invasores do local. Sobre a vida na ocupação, ela tem experiência. Mãe de 21 filhos, entre os naturais e os adotados, ela permaneceu na invasão chamada de Nossa Senhora Aparecida que foi instalada no mesmo local e depois derrubada - por vários anos, na tentativa de conseguir uma casa própria para um deles. Depois que os moradores foram levados para o Jardim Novo Horizonte 2, ela voltou para a própria casa, no Conjunto Violim, onde vive com muitos parentes.
Ao receber a notícia da nova invasão, voltou ao local para garantir terrenos para outros cinco filhos. "Da outra vez, fui eu quem batizou de Nossa Senhora Aparecida", diverte-se, explicando que fez uma homenagem ao próprio nome. Ocupada com a arrumação da mudança da prole, ela garante que está no local por causa dos filhos e vai enfrentar todas as dificuldades para tentar garantir uma moradia mais digna para eles. "As pessoas não aguentam mais. As autoridades precisam olhar para a gente com mais cuidado", reivindica.


