Em 1944 o mundo estava em ebulição. A Segunda Guerra Mundial estava em curso e vários países ainda lutavam para reaver seus territórios, enquanto outros aproveitavam a oportunidade para tentar anexar mais terras e povos. A União Soviética (URSS), criada em 1922 sofria com a invasão da Alemanha nazista, mas a população há muito padecia com o regime de Josef Stalin, que havia criado inúmeros conflitos internos com sua forma ditatorial de governar.
Os campos de concentração de Adolf Hitler, em que estima-se que seis milhões de pessoas tenham sido mortas, é uma das lembranças mais tristes e dramáticas deste período. Quando se fala nesses campos, geralmente se associa ao drama vivido por judeus, homossexuais e deficientes físicos e mentais que foram exterminados nas câmaras de gás. O que muitos não sabem é que prisioneiros de outras nacionalidades também foram levados para campos de concentração de trabalhos forçados. No Paraná, três sobreviventes desses campos ainda esperam por indenização do governo alemão.
Os irmãos ucranianos Nicolay e Valentim Hluchow e Lubov Hluchow Tripac, ''abrasileirado'' para Lurdes, ainda eram crianças quando foram levados com seus pais para um campo na fronteira da Alemanha com a Holanda. Talvez pela pouca idade na época, ou pelo trauma, eles não conseguem mais se recordar do nome do lugar.
''Quando a Alemanha invadiu a União Soviética, da qual a Ucrânia já fazia parte, mesmo os jovens de 17 anos já estavam na guerra e assim faltava mão de obra. Meus pais e inúmeros outros foram arrastados de suas casas e levados para esses locais'', lembra Valentim, de 71 anos, que hoje divide um pequeno sítio em Doutor Camargo (Noroeste) com o irmão Nicolay, de 74. Lurdes, de 77 anos, hoje mora com a filha em Cambé (Norte), depois que o marido faleceu.
Sob a mira de armas
Se do nome da cidade natal ou do campo de concentração eles não se lembram, os horrores da guerra ainda estão bem presentes na memória de cada um. Valentim conta que durante o dia os adultos eram levados para o trabalho de extração da turfa - uma espécie de carvão vegetal -, e as crianças ficavam no campo, sob a mira de armas dos soldados.
''Tudo ali era muito precário. Fazia muito frio e não tínhamos agasalhos. Os soldados não podiam nos ver fazer uma fogueira que vinham apagar e ainda batiam na gente. O alojamento eram barracões cheios de beliches e ficava todo mundo junto. Muita gente ficava doente porque não havia higiene nenhuma e a comida era horrível'', conta Valentim. Nicolay se recorda que era servida uma sopa feita com um tipo de nabo, que tinha gosto e cheiro horríveis. ''Eles plantavam isso para dar para os porcos e davam para a gente também'', lamenta.
Dona Lurdes, na época com 9 anos, lembra que saía pela vizinhança para pedir doações de alimentos e assim conseguir fazer uma comida melhor para todos. ''As crianças podiam sair do campo de concentração. Eu era a mais velha e a gente ia nos sítios que havia por perto para pedir alguma coisa.''
Eles contam que qualquer desobediência era motivo para agressões físicas, que também eram aplicadas em quem não rendia o esperado no trabalho. ''O pior mesmo era para os prisioneiros de guerra russos, que ficavam presos em um alojamento ao lado do nosso. De lá vinham gritos horríveis e a comida era muito pior do que a nossa, além de sempre faltar. Meus irmãos e outras crianças mais velhas muitas vezes levavam o que sobrava da nossa comida para eles'', conta Valentim.
Lenços brancos
A família ficou presa de março de 1944 até abril de 1945, quando finalmente a Alemanha foi derrotada e os prisioneiros foram libertados. Os irmãos Hluchow acreditam que só sobreviveram devido ao tempo relativamente pequeno em que lá permaneceram. ''Ficamos 13 meses, mas vimos muita gente morrer nesse período. Quando a gente via uma mulher chorando pela perda de um filho minha mãe nos dizia que ela estava doente, mas ficamos sabendo que meu pai enterrou muitas crianças lá, ainda de madrugada, antes de ir para o trabalho'', conta o caçula.
Outra lembrança eram os constantes bombardeios aéreos, que são revividos cada vez que a família ouve um avião. Nicolay afirma que o campo de concentração nunca foi bombardeado, porque os inimigos sabiam que no local existiam vítimas. ''As mulheres russas usavam lenços brancos para trabalhar e colocavam esses lenços na cerca, como se tivessem sido lavados. Eles (pilotos) devem ter entendido o sinal, porque nunca nos aconteceu nada'', destaca.

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