Filho de pai e mãe soropositivos, Luciano (nome fictício), de 19 anos, é considerado um exemplo a ser seguido pela equipe de acompanhamento às pessoas vivendo com HIV e aids (PVHA) do ambulatório do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O rapaz foi infectado pela transmissão vertical e convive com o vírus desde que nasceu. A mãe morreu há três anos. Ele mora com o pai, um usuário de drogas e álcool que "ainda não se encontrou", segundo o próprio garoto, e as duas irmãs, mais velhas e não infectadas.
Luciano é exemplo porque seu comportamento destoa do da maioria dos jovens soropositivos já assistidos no HC. "A maioria não faz o tratamento adequadamente e muitos até resistem", diz a assistente social do HC, Argéria Serraglio Narciso. Luciano, não. Faz o tratamento com antirretrovirais desde a infância – atualmente, toma oito comprimidos por dia – e diz que incentiva seus amigos a fazer o sexo seguro, como ele. "Cada um é cada um. Se a pessoa sabe se valorizar e se cuidar, tem uma vida normal. As pessoas têm que ser fortes para superar isso", afirma o garoto, homossexual assumido.
Só que a autoestima aparentemente elevada revela um receio bastante comum entre os soropositivos. Luciano diz que só a família e o ex-namorado sabem que ele é soropositivo. "Eu não conto porque, primeiro, acho que ninguém tem nada a ver com a minha vida. E depois, porque rola um preconceito", admite. Também foi por medo da rejeição social que a diarista Olga, de 55 anos, que faz tratamento no Centro de Referência de Aids da Secretaria Municipal de Saúde, omite sua condição. Apenas o marido e o filho mais velho foram informados que ela é soropositiva. E reação do filho é que lhe revelou a dor do preconceito. "Ele mora em Sumaré [cidade paulista próxima a Campinas] e foi a primeira pessoa para quem contei. Falou para eu voltar para lá para fazer o tratamento perto dele, mas disse que eu teria que usar talheres e toalhas próprias em sua casa. Se meu filho pensa assim, imagine os outros", comenta. "O preconceito dói mais do que a doença", constata. Luciano está no terceiro ano do ensino médio e já pôs na cabeça que será médico infectologista. "Eu vou fazer medicina. Sou um cara decidido, quando quero vou atrás", afirma.(D.P.)

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