A dona de casa Sílvia (nome fictício) levou um susto quando os dois filhos gêmeos, na época com menos de 3 anos, foram diagnosticados com Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). ''Eles eram agitados desde que nasceram, mas eu achava que todas as crianças se comportavam assim'', conta. Quando a diretora da escola de educação infantil sugeriu que eles pudessem ser hiperativos, a mãe resolveu procurar um neurologista para sanar a dúvida. Após consulta com o especialista, deixou o consultório com uma prescrição de medicamento para TDAH.
''Fiquei assustada com a possibilidade dos meus filhos tomarem remédio, mas o médico explicou que era só uma ajuda'', diz. Sem condições financeiras de procurar outras alternativas, como atendimento psicológico ou mesmo a prática de esportes que foi sugerida, ela passou a medicar diariamente os meninos, hoje com quase 4 anos. Sílvia não quis se identificar para não submeter os filhos ao rótulo de serem ''hiperativos''. ''Quando falo que dou remédio, as pessoas criticam'', lamenta.
A mãe, que considera-se ansiosa e agitada, revela que o pai dos garotos tem as mesmas características. ''Com pais assim, não teria como eles serem tranquilos. Acho até que é genético'', sentencia. Avaliando a possibilidade de procurar um psicólogo ou até mesmo ouvir uma segunda opinião sobre o diagnóstico de TDAH, ela acredita que os meninos não precisarão tomar remédios para a vida inteira. ''É só uma ajuda para esta fase escolar.''
O funcionário público Paulo (nome fictício), de 32 anos, descobriu aos 22 que tinha o chamado deficit de atenção. ''Não passei no teste psicotécnico para tirar habilitação. Além disso, um professor da universidade desconfiou que eu era disléxico e me encaminhou para um serviço especializado. Fiz avaliação com neurologista e psicóloga e o problema foi diagnosticado'', relata.
Quando ouviu a recomendação de medicação e terapia, a primeira reação foi de susto. ''Afinal, era um medicamento 'tarja preta''', conta. Com expectativa de melhorar, começou a tomar o remédio. ''Realmente ajudou, principalmente na concentração, porque eu me sentia sempre aéreo, perdido'', recorda. A solução final, porém, veio através da terapia, que o ajudou a organizar a rotina e a desenvolver o autocontrole para resistir aos impulsos de procrastinar.''O medicamento ajuda a operacionalizar, mas sem terapia não resolve'', acredita.
Há seis meses, ele parou de usar a medicação, que produzia efeitos colaterais como perda do apetite e ocasional falta de sono, além do desgate mental quando acabava o efeito. ''Como internalizei comportamentos de disciplina e organização, o remédio se tornou menos necessário. É claro que tenho momentos de dispersão, como todo mundo, mas não quero que o medicamento se torne uma 'muleta''', compara. (C.A.)

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