Durante a produção das fotos que ilustram esta reportagem, o inspetor de alunos Tião permaneceu impassível no portão do Colégio Vicente Rijo, a despeito das centenas de adolescentes que passaram por ele fazendo brincadeiras sobre a sessão de "cliques". Com a inseparável pasta azul em uma das mãos e o molho de chaves que garante acesso a todos os cantos da maior escola estadual de Londrina na outra, ele apenas esboçou um meio sorriso ao fotógrafo ao final do trabalho, quando a maioria dos estudantes já tinha deixado a escola. A expressão séria, porém afável, com certeza vai despertar recordações nas pessoas que passaram pelo Vicente Rijo nas últimas três décadas.
Tião, que veio ao mundo como Sebastião Nascimento há 65 anos, é funcionário do colégio há 27 anos e, desde então, administra o vaievém de estudantes na escola localizada na tradicional esquina entre as avenidas Higienópolis e JK, por onde passam anualmente em torno de 2 mil alunos.
Casado com Iraci e pai de Ione, Edilaine e Eliane, Tião é capixaba, mas morou em várias cidades antes de se fixar em Tamarana, onde trabalhava como operador de máquinas. A história com o Vicente Rijo aconteceu por acaso. Na época ocupado como servente de pedreiro, ele ajudou a construir o Ginásio de Esportes da instituição de ensino. "Era para eu ficar uma semana. Estou aqui há 27 anos", conta, explicando que, ao término da obra, ofereceram a ele uma vaga de zelador para tomar conta do novo complexo esportivo. "Fiquei um ano no ginásio. Desde então, meu trabalho é cuidar dos alunos."
Tião, por oito anos, chegou a morar no colégio, na época em que havia residência para zelador. Sobre a experiência, recorda que trabalhava muito mais que as oito horas atuais, porque estava sempre disponível para abrir ou fechar portas para quem quisesse entrar na escola fora do horário de aulas. "O Vicente Rijo é muito grande. Sempre tem alguma coisa acontecendo."
Ele se mudou da casa da escola pela primeira vez porque, na época, houve um incentivo para os funcionários que se demitiam receber o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Voltou logo depois para a mesma casa e o mesmo trabalho, mudando novamente quando passou no concurso público e foi efetivado na vaga de inspetor. "Meu maior medo era ter de mudar de escola. Mas deu certo e consegui ficar aqui", comemora ele, que neste período teve que administrar as duas filhas mais novas estudando no Vicentão. "Era complicado, porque eu tinha que advertir como pai e como funcionário."
Praticamente um ícone da escola, Tião já se acostumou a ser reconhecido por ex-alunos quando vai à farmácia, ao supermercado ou às compras no Centro da cidade. Encontrar "meninos" que davam muito trabalho, agora estabelecidos na vida, é uma das alegrias do inspetor. Recentemente, ele foi abordado por um antigo estudante que costumava tirá-lo do sério quando frequentava os bancos escolares. "Ele estava formado, casado e tinha uma empresa. Me perguntou se, na época da escola, eu acreditava que ele ia ser alguém na vida. Respondi que sempre acredito no futuro dos alunos", diz.
Outra experiência ocorreu no dia em que levou o neto para uma consulta no Hospital Universitário (HU) e foi reconhecido pelo médico que atendeu o menino. "No início, não lembrei dele. Os bons alunos são mais difíceis de reconhecer, porque não davam trabalho... Depois recordei que eles tinham um projeto com plantas e eu ajudava a por água", conta.
Tristeza mesmo Tião sentiu ao se deparar com um usuário de drogas perambulando pela cidade e identificou que ele havia passado pela escola. "Era um menino com quem eu conversava bastante, dava conselhos, mas naquele dia ele me contou que não teve forças para segui-los. Senti um aperto enorme no peito", lamenta.
O guardião do Vicente Rijo conta que mantém a rigidez no trato com os alunos para garantir a ordem na escola, mas vez ou outra é procurado por adolescentes que desabafam sobre problemas familiares e outros dilemas típicos da idade. Nessas horas, procura conversar e aconselhá-los a seguir um bom caminho. Os momentos difíceis acontecem, principalmente, quando é chamado à direção para relatar aos pais que os filhos têm comportamentos inadequados ou andam em "más companhias". Os bons momentos, por outro lado, são abundantes no final do ano, quando os formandos voltam para contar que passaram no vestibular. "Sinto que contribuo para o sucesso dos 'meninos'", afirma.
Tranquilo, ele conhece 90% dos alunos da escola e garante que tem uma intuição especial para identificar adolescentes "matando aula". Pensa em aposentaria, mas ainda não está cansado a ponto de abrir mão do trabalho diário. Questionado sobre a importância do Vicente Rijo para a vida dele, responde, sem hesitar: "é a melhor escola do mundo".

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