O futuro é agora
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de dezembro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Eles não querem ser apenas o "futuro do País". Conscientes e antenados, são também protagonistas do presente, ampliando as reivindicações de quem acabou de sair da infância mas já sabe que tem direitos e luta para que sejam preservados. Anunciados como uma geração de jovens individualistas e alienados, adolescentes brasileiros contrariam a expectativa e mostram que querem ter voz, utilizando as redes sociais para debater causas que julgam necessárias.
Na luta pela preservação das escolas públicas em estados como São Paulo e Goiás, por exemplo, ou conquistando cada vez mais espaço nas discussões políticas que pautam decisões para esta parcela da população, como é o caso das conferências da criança e do adolescente no Paraná, eles estão transformando o momento histórico atual do País. Não à toa, a Conferência Nacional da Juventude, realizada na semana passada em Brasília, abordou o tema "As várias formas de mudar o Brasil", dando voz a coletivos de jovens que defendem causas tão diversas como igualdade de gênero, democracia, igualdade racial e o direito à comunicação.
"A geração que nasceu na época da internet, das transformações tecnológicas, parece que seria alienada e individualista, porque não tem identificação com grandes líderes e não se sente representada pelos partidos políticos. Ocorre que esses adolescentes constroem a sociabilidade de forma diferente, pelas redes sociais, sem necessidade de espaço físico para debater e se conectar. As gerações mais antigas não perceberam que esses jovens, seja nas manifestações de 2013 ou agora, nas escolas públicas de São Paulo, se mobilizam pela internet e levam movimentos muito organizados para o plano físico", analisa a socióloga Rosana Schwartz, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A pesquisadora destaca que essa geração de adolescentes e jovens luta por causas específicas, o que causa a impressão de não terem foco. "Ao contrário, as causas específicas que pipocam em todos os lugares se juntam quando é necessário", opina ela, destacando que o movimento contra o fechamento de escolas públicas em São Paulo, por exemplo, concentra várias demandas.
Umas delas é a mobilidade urbana, que falha nos grandes centros. Segundo Rosana, o anúncio sobre o fechamento de escolas despertou para a dificuldade dos estudantes em se locomover. "As famílias mais carentes precisam que o irmão mais velho leve o mais novo para escola, o que será difícil acontecer com irmãos em escolas diferentes. Mas isso não foi levado em conta, o que é desumano, pois os pais não querem que os filhos andem sozinhos pela cidade, que não oferece segurança. Essa questão, aliás, é uma pauta que ficou explícita nos movimentos", afirma.
Outra demanda explícita é a preocupação com a qualidade do ensino público, que ela considera "péssimo". "O debate acabou levando às condições de trabalho ofertadas aos professores", continua, destacando que a conexão entre pautas diferentes mostra que o jeito arcaico de fazer política não satisfaz os jovens, que querem ser ouvidos e influenciar decisões, o que os diferencia de uma geração um pouco mais velha, focada no trabalho e no individualismo.
Otimista com as características dos jovens brasileiros, a socióloga alerta, porém, que a forma de organização pelas redes sociais tem também aspectos negativos. "Eles criam coletivos, mas não lidam com opiniões contrárias. Acabam deletando vozes dissonantes e discutem apenas com vozes iguais, o que cria uma certa intolerância e radicalismo", aponta, exemplificando que muitos grupos defendem direitos humanos, mas há também os que se posicionam contra tais direitos. "É preciso tomar cuidado", adverte.
Resposta
A professora do departamento de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ana Luisa Sallas, que também atua no programa de pós-graduação em Sociologia da universidade, destaca que a mobilização de adolescentes e jovens é também uma resposta destas pessoas à agenda política atual do Brasil, marcada por crise política e discussões no Congresso Nacional que ameaçam a perda de direitos adquiridos, como por exemplo as questões relativas às vítimas de violência sexual. "Esses debates acabam incentivando os movimentos, como uma resposta às ações mais conservadoras. Processos históricos em que há acirramento dos conflitos de interesses incentivam as manifestações", analisa.
Quanto aos adolescentes, ela defende que as escolas públicas são espaços emblemáticos em relação à garantia de direitos, visto que esses estabelecimentos são a principal alternativa de educação da classe média baixa e também classes populares. No Paraná, Ana Luisa lembra que a adesão dos alunos ao movimento grevista dos professores no início do ano, que se intensificou após conflitos com a polícia, é uma indicação clara de que a educação faz parte das preocupações desta geração. "Educação significa mobilidade social. Fizemos uma pesquisa na UFPR e identificamos que muitos alunos saíram de famílias cujos pais não têm ensino fundamental completo, mas os filhos chegaram à universidade. A escola pública é a garantia de acesso à educação", afirma.


