O farmacêutico que virou agente da cultura
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sábado, 10 de agosto de 2013
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
É como se o jeito tranquilo, a constante disposição para uma boa conversa e o espírito aberto às manifestações culturais tivessem predestinado o farmacêutico Valdomiro Chammé, de 54 anos, a ser dono de bar. Mas há pouco mais de 22 anos, ainda envolvido apenas com o mundo dos medicamentos, talvez ele próprio achasse a ideia estapafúrdia. Foi por acaso que ele e a esposa, a também farmacêutica Rosângela Sperandio Chammé (a Zanza), se lançaram na atividade, até então totalmente nova para ambos. Hoje o sobrenome incomum se funde ao de um dos espaços culturais mais antigos de Londrina, o Bar Valentino. E não poderia ser diferente: em toda a sua história, eles são os proprietários que mais tempo ficaram à frente do empreendimento.
"O Valentino foi criado em 1979, com uma festa promovida pelos professores José Antonio Theodoro e Marco Antonio Morais, do Colégio Positivo. O sucesso da festa de estudantes foi tanto que a casa se transformou em bar", conta Chammé. Pouco tempo depois ele foi comprado pelo italiano Giuseppe Loiacono, o Pino, que introduziu no cardápio a célebre macarronada da casa.
Chammé e a mulher, egressos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), se envolveriam com o negócio muitos anos depois. "Começamos a frequentar o bar com mais assiduidade a partir de 1984. Sempre gostamos muito do local, pelo ambiente, pela música, pela culinária. Um dia, no ano de 1991, estávamos conversando com um garçom da época e, por acaso, começamos a fazer perguntas sobre o bar. Ele estranhou os questionamentos e nos perguntou se estávamos querendo comprá-lo." Foi assim que o casal ficou sabendo da intenção dos proprietários da época, Marcos e Luís Marangoni, de venderem o negócio.
Na época, porém, Chammé trabalhava em uma multinacional e, antes que a decisão pela compra do bar fosse tomada, teve que passar uma temporada no exterior. Neste meio tempo, apareceu outro comprador e Zanza teve que decidir sozinha pela compra e fechar o negócio. "Quase caí das pernas quando soube", brinca Chammé, contando que ela tocou sozinha o novo negócio durante uns quatro meses, no período transcorrido entre a compra e a saída do marido da multinacional. "Fiquei receoso no começo, mas ela soube tocar tudo sozinha com valentia", elogia. Em 1997 eles compraram também uma farmácia de manipulação, e Chammé passou a tocar o bar juntamente com os novos sócios, os garçons Marcio Guerra e Ismael Matos, que entraram para o negócio há 12 anos e passaram a assumir o controle do bar à noite.
Hoje Chammé fica nos bastidores, resolvendo "pepinos", cuidando do estoque da casa, organizando e divulgando a agenda cultural. A fala sossegada não deixa transparecer, mas os desafios, nas últimas duas décadas, não foram poucos. "No começo não sabíamos nada de bar, nem como funcionava o serviço, o mecanismo de compras, nada. Aprendemos tudo na raça, com a ajuda dos funcionários." Com o passar dos anos a casa de madeira que até 2006 funcionou na Rua Jorge Velho, na área central da cidade, tornou-se uma referência na área cultural, abrigando peças de teatro, exposições, shows e o que mais a criatividade de artistas permitisse. Talvez por isso boa parte de seu público seja de jovens mais intelectualizados.
Um grande desafio para Chammé e Zanza, ao longo de suas trajetórias como donos de bar, foram os problemas registrados com a vizinhança e a falta de segurança no entorno da casa, no início dos anos 2000, que tornou insustentável a manutenção no antigo endereço. Mudar era o único caminho possível, mas como abrir mão da velha casa de madeira, com seu famoso luminoso remetendo a Rodolfo Valentino? Uma ideia "maluca" começou então a se materializar, com a participação de profissionais de várias áreas: remontar a casa no novo endereço, na esquina da Rua Joaquim Nabuco com a Avenida Faria Lima. Bem ali, no caminho da UEL e pertinho do Lago Igapó.
Chammé não esquece de quem tornou possível a transferência da casa. "A colaboração do artesão Poka Marques e seu mestre de obras, do fotógrafo Saulo Ohara, do arquiteto Antonio Carlos Zani, estudioso da arquitetura em madeira, e do engenheiro Clóvis Kaster foi fundamental." Ele conta que a estrutura teve que ser toda desmontada e refeita. "No dia em que o caminhão chegou aqui e todas aquelas tábuas foram amontoadas no chão, olhei e pensei: não vai rolar. Mas eles foram verdadeiros artistas", relembra, olhando para a construção preservada. Segundo o empresário, apenas o forro da antiga casa não pôde ser mantido, mas aí entrou em ação a artista plástica Iara Strobel, que recriou o desenho original. Assim, o "milagre" de reeditar o clima da casa foi realizado, e ela permanece lá, ao lado na nova construção de concreto (chamada de anexo), que foi preparada para abrigar os shows de maior potência de som e de maior público.
No novo endereço, ficaram para trás os problemas relacionados ao ruído gerado pelo bar, e quando poucos se preocupavam com o assunto, Chammé fez questão de cumprir à risca o Código de Posturas do Município, e explica por quê: "Não tem como a sociedade conviver com arbitrariedades e nada acontecer. Fomos uns dos primeiros a cumprir a legislação, então somos sempre bastante fiscalizados. Mas acredito que isto, ao mesmo tempo em que é um fardo, é uma necessidade."


