Foi com lágrimas nos olhos que o funcionário público Deoclécio Moraes Silva Filho, de 58 anos, relatou a experiência de ter finalizado a primeira corrida de montanha que realizou na vida. Corredor experiente, ele experimentou a emoção de concluir um percurso de 80 quilômetros na Serra da Mantiqueira, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, em uma prova que durou mais de 24 horas. Deoclécio e a companheira Célia Vendramini foram os penúltimos a chegar, duas horas depois de terminado o tempo limite da prova. Um lugar no pódio, porém, não era o objetivo do atleta. Com uma trajetória marcada pela superação das mais diversas dificuldades, Deoclécio dedica a vida a vencer os próprios limites para manter o equilíbrio conquistado ao longo dos anos.
Na história de Deoclécio, o primeiro limite a ser superado foram os vícios. Casado com Maria Áurea e pai de Kelly e Karina, aos 35 anos ele se reconheceu alcoólatra quando se deu conta que estava bebendo para conseguir dormir. "Admiti que tinha ultrapassado os limites ao perceber que não tinha nada, apenas dívidas. Aí pensei: eu tenho que criar essas filhas", conta ele, que parou de fumar e beber no mesmo dia: 23 de maio de 1991.
Com força de vontade e com o apoio e a paciência da esposa, conseguiu superar o "cara horrível" em que se transformou na época em que lutava contra a dependência. "Toda vez que conto isso, reforço minha convicção", relata, emocionado, lembrando que foi graças a essa decisão que "teve tempo de se transformar em um bom exemplo para as filhas".
A superação dos vícios não veio sem novas consequências. Sedentário e focado no trabalho, na faculdade e na pós-graduação, ele chegou aos 48 anos novamente ameaçado, desta vez pelo excesso de peso e pela hipertensão. "O cardiologista me advertiu que, se eu continuasse daquele jeito, iria morrer. Foi aí que dei nova guinada na minha vida", revela.
Perto dos 50 anos, Deoclécio começou a fazer caminhadas de uma hora por dia. Depois de um tempo, passou a ensaiar pequenas corridas. "Quando dei uma volta inteira no lago (Igapó 2), liguei para todos os parentes", lembra. E foi assim, aos poucos, superando pequenas metas antes de impor novos desafios que ele participou da primeira maratona, em 2010. "Fiquei quebrado, mas consegui terminar. Meu objetivo nunca é vencer, mas completar o percurso", explica.
Depois de correr em várias provas da São Silvestre, o atleta aceitou o desafio de participar de uma prova de 52 quilômetros, o "Desafrio", em Santa Catarina, que concluiu em oito horas. "Aí fiquei sabendo dessa prova de 80 quilômetros com 24 horas para concluir. Convidei a Célia, esperando que ela me chamasse de louco. Mas ela aceitou", diverte-se.
Deoclécio e a companheira de treinos sabiam que a prova seria na montanha, em trilhas complicadas. "Mas não imaginávamos que seria tão difícil, inclusive com necessidade de usar cordas em alguns trechos", diz ele, que na companhia de Célia passou 26 horas acordado, parando apenas para comer e beber água.
No caminho, viu muita gente desistir. Aos 17 quilômetros, "arrastou" Célia, já cansada, para persistir na longa jornada. Ao final, quando ele próprio achou que não tinha mais forças, foi "empurrado" pela companheira, com quem cruzou a linha de chegada. "Achamos que não teria mais ninguém no local, porque o tempo limite para conclusão da prova tinha se encerrado. Mas fomos recebidos como vencedores e ganhamos medalhas", comemora.
Ao final da experiência, Deoclécio garante que renovou todas as energias para lidar bem com os outros desafios impostos diariamente pela vida. "Tenho rugas, mas minha cabeça é de um jovem de 30 anos", garante. Todo o esforço empenhado nas corridas tem a ver com a necessidade constante de reforçar aquela primeira superação, contada no começo desta história. "Tenho que lutar todos os dias contra a minha antiga condição. Não quero recair jamais, por isso preciso estar pronto para vencer este desafio."
Aos leitores que conheceram agora a trajetória de Deoclécio, ele aproveita a oportunidade para dar um conselho de quem superou o cigarro, a bebida, o excesso de peso e o sedentarismo. "Descobrir a vida sem vícios é melhor que ganhar na loteria, é como nascer de novo. Saiam do colesterol e da pressão alta e aproveitem a vida."

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