O mercado de trabalho é ainda mais excludente em relação aos profissionais LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Não há estatísticas oficiais, mas estima-se que 20% as empresas não contratam homossexuais e das que contratam cerca de 50% são para cargos considerados inferiores e sem contato com o público.

De acordo com um levantamento do Grupo Gay da Bahia, um dos mais atuantes no País, 90% dos profissionais transgêneros trabalham na informalidade e com prostituição.

Essa realidade faz com muitos profissionais fiquem "no armário" dentro das corporações. "Dois terços dos funcionários LGBT estão no armário das empresas. E isso acarreta em um monte de coisas que afetam a produtividade", afirma João Lucas Andrade Torres, sócio da Mais Diversidade, consultoria de diversidade e inclusão.

Segundo ele, o engajamento dos profissionais "fora do armário" é 30% maior. "Quando eles precisam se esconder, ficam menos produtivos por causa da preocupação de não revelar sua orientação sexual. A segunda-feira é o pior dia, pois a conversa no escritório normalmente gira em torno do que fizeram no fim de semana. E quem está no armário não pode contar a verdade", comenta.

Se é difícil conseguir um emprego, subir nos pilares hierárquicos das instituições é uma missão quase impossível. E para os transgêneros, os obstáculos se multiplicam exponencialmente. De acordo com Torres, no Brasil há apenas duas executivas transgêneros. Uma delas é Daniele Torres, executiva da KMPG. No Dia Nacional da Visibilidade Trans, em janeiro, ela publicou em seu perfil público no Linfedema, rede social de netbook, um relato de como foi o processo de afirmação do seu gênero e a acolhida da empresa.

Torres escreveu " (…) a minha identidade de gênero é quem eu sou. E para por aí. Do ponto de vista profissional, antes de ser transgênero sou uma executiva perfeitamente capacitada para executar as minhas funções, com formação e credenciais diversas e de primeiro nível, e com ampla experiência e bagagem, que permitem que eu seja a profissional que sou e entregue com excelência e qualidade os serviços da KPMG. O caminho foi fácil? Claro que não! Mas não havia alternativas, visto que eu não tenho como negar quem eu sou."

"Posso me aceitar, mas e depois?"

Alexandre Porfírio: muitas dúvidas antes de assumir identidade
Alexandre Porfírio: muitas dúvidas antes de assumir identidade | Foto: Aline Machado Parodi



"Preciso viver uma vida que não é minha?" "Posso me aceitar, mas e depois?" Esses questionamentos giraram pela cabeça do estudante Alexandre Porfírio, 23, por algum tempo. Preconceito, aceitação, dúvidas... Se sair do armário é difícil no ambiente de trabalho, assumir a sua identidade de gênero pode ser apavorante.

Por muito tempo, Porfiro acreditava que era lésbica, mas durante um relacionamento, a namorada o fez perceber que, na verdade, é transgênero. "Fiquei um ano pensado se assumia ou não minha identidade", diz.
Ele saiu do emprego em uma confecção poucos meses antes de se assumir. Quando começou a procurar novo trabalho, o estudante percebeu como o caminho profissional seria duro. "Quando a pessoa escuta você pelo telefone ela criar uma ideia, mas quando você chega para a entrevista tem uma barreira. É um choque para a pessoa. Ela idealiza uma coisa diferente do que é realmente. Mesmo com um currículo atraente, ela não te contrata", afirma.

Porfírio relata que os empregos oferecidos para os transgêneros, principalmente em Londrina, são os mais insalubres e com menores salários, principalmente para aqueles que ainda não completaram a transição física.
Ele trabalhou dez meses em uma empresa após assumir o nome social, mas percebia nos colegas a dificuldade em chamá-lo de Alexandre e também um tom de deboche naqueles que o faziam. "Percebo que algumas pessoas têm realmente dificuldade de entender, mas há aqueles que fazem de deboche mesmo."

Há três meses, ele foi contratado como estagiário da Fundação de Esportes de Londrina. A experiência tem sido completamente diferente. "Fui contando aos poucos e foi muito tranquilo", afirma.

A preocupação do estudante é com o futuro: será que após a faculdade conseguirá um emprego que possa lhe garantir uma estabilidade financeira? "A realidade hoje é que ou você trabalha sem registro, em trabalhos que ninguém quer, ou você acata um visual de menino ou menina que a sociedade quer. Mesmo com uma formação universitária, as dificuldades para ter um emprego normal triplicam", comenta.

Porfírio conta que ficou um ano travado entre escolher a sua identidade ou o trabalho. "Posso me aceitar, mas e depois? Você não cresce, não vai para frente".

Alexandre Porfírio é estudante do quarto ano de arquivologia da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e pretende faz mestrado para seguir carreira acadêmica, pois acredita que não terá chances profissionais na iniciativa privada.

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