Mário CesarReminiscênciasO antigo pode ser transformado: o guarda-roupa virou uma útil prateleiraNa literatura sobre decoração eles só são considerados como antigos se tiverem mais de 100 anos, senão são apenas velhos. Antigos ou velhos, não importa. Eles dividem lugar com o novo, o moderno. Muitas vezes nem funcionam mais, mas o que vale é o apelo estético e o charme que eles proporcionam para os mais diversos ambientes. Móveis e eletrodomésticos do tempo da vovó encantam jovens e adultos que lançam mão destas peças como objetos de decoração.
O contraste entre o novo e o velho é o que mais atrai as pessoas que gostam de peças que já estão fora de linha. Estes objetos antigos - ou velhos, como manda a literatura - ao lado de móveis modernos compõem ambientes com reminiscências dos bons tempos da infância, trazendo, muitas vezes, muita afetividade.
E não são apenas as pessoas mais velhas que valorizam estas peças. A jovem publicitária Luciana Kley Bognato, 21 anos, estuda em São Paulo onde mora com mais quatro amigas em uma república. Ainda não pode decorar a sua casa como gostaria, mas tem verdadeira fascinação por objetos e móveis antigos.

Fora de linha, a geladeira decora a vitrine da Mercearia GourmetEla frequenta feiras de antiguidade em São Paulo só para ver o que tem de novidade no velho. ‘‘Adoro passear nestas feiras. Ainda não dá para ter objetos do jeito que eu quero na república’’, afirma. ‘‘Por enquanto a gente se contenta com os móveis que vieram da casa de cada uma das meninas’’.
Mesmo ao acaso, Luciana, tem um eletrodoméstico antigo em casa, em pleno uso. É uma máquina de lavar. ‘‘Deve ter sido um dos primeiros modelos da Brastemp’’, arrisca. A máquina está em pleno uso e é herança da cada de praia de uma das amigas de Luciana.
Mas o fetiche da jovem publicitária é uma geladeira vermelha que a avó tem na chácara de Londrina. ‘‘Eu acho simplesmente linda’’, afirma. Outro eletrodoméstico - este Luciana não sabe mais por onde anda, apenas povoa suas lembranças - que a publicitária achava lindo era um fogão vermelho dos seus tempos de criança. ‘‘Ele tinha até um tipo de prateleira para temperos’’, conta.

Mario CesarQuando conseguir seu próprio canto, Luciana tem certeza que o antigo, o velho, farão parte da decoração. ‘‘Estes eletrodomésticos têm que ser usados apenas como decoração, já que não funcionam mais, ou funcionam mal’’, observa. Outro objeto que Luciana deseja ter decorando sua casa é um projetor de super 8. ‘‘Acho estes projetores esteticamente muito legais’’, diz.
Não são apenas em casas que os objetos, eletrodomésticos e móveis mais antigos são utilizados. Na Mercearia do Gourmet, em Londrina, pode-se ver na vitrine uma geladeira, fora de linha, compondo a decoração. Um guarda-roupa antigo virou prateleira na Mercearia, e um guarda-comida, também do tempo da vovó, divide espaço com móveis mais modernos.

Mario CesarJogo de sala dos anos 60 com cristaleira (no detalhe) tem valor sentimental para a dona de casa que não se desfaz deleA proprietária da Mercearia do Gourmet, Cristiane Garcia Cid Mattos, afirma que tanto a geladeira quanto os móveis são utilizados na decoração devido ao apelo estético. ‘‘Me agrada esteticamente o contraste entre o novo e o velho’’, afirma.
Para a dona de casa, Helena Minatti, 75 anos, os móveis antigos oferecem um apelo de afetividade. Em seu apartamento o jogo de sala, o dormitório e outras peças, uma cristaleira e um balcão, dos anos 60 são verdadeiras relíquias.
Helena Minatti tem adoração por seus móveis em marfim com detalhes em imbuia. Seus filhos já recomendaram que ela os trocasse por móveis mais modernos. Mas Helena não pensou duas vezes: ‘‘Nada disso, não troco meus móveis por nada, eles vão morrer comigo’’.

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