O arquiteto é um tradutor de desejos
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de maio de 1997
Iara Lessa 
Marcos BorgesHenrique Calixto Brunelli: A linguagem é a marca do arquiteto. Através dela, as pessoas identificam os profissionaisConseguir transformar desejos em ambientes bonitos e funcionais é tarefa do arquiteto de interiores. Idéias a serem executadas, caminhos a serem escolhidos, materiais diferentes, cores, estilos, luzes e nuances, tudo isto vai lentamente se transformando em um projeto de interiores. Para o arquiteto londrinense Henrique Calixto Brunelli, o caminho é organizar e traduzir em formas o que o cliente deseja. Todo cliente quando entra pela porta do escritório sabe exatamente o que quer. Ele apenas não sabe e não tem conhecimento para organizar tudo isto. É função do arquiteto de interiores traduzir esses desejos, transformando-os em ambientes, sem nunca esquecer o bom senso e o bom gosto, aliados essenciais para a execução de um bom projeto.
Dono de um estilo clássico moderno, Brunelli, que atua na área há 12 anos, não dá muita bola para as tendências, que acredita serem apenas modismo, com uma certa interferência do profissional. O que Brunelli almeja é sim a linguagem. A linguagem é a marca que identifica o profissional. É nessa hora que você mostra sua visão do mundo, acredita.
Ordem e metodologia. Segundo Brunelli, essas são as chaves para o sucesso de um bom projeto de interiores. Acreditando nessa máxima, o arquiteto londrinense diz que não existe um processo de criação em que o projeto aparece inteiramente pronto em sua cabeça. Para ele é necessário, antes de mais nada, definir o espaço e seus condicionantes. É claro que há a criatividade do profissional, mas não como um processo de criação, onde você fica sentado na frente da prancheta, esperando pela inspiração. Não, é necessário suar a camisa. A escolha de cada detalhe não é aleatória, faz parte da bagagem do profissional. É a hora da verdade para cada arquiteto. Eu costumo dizer que um bom projeto de interiores deve ser como picles, quanto mais curtido, melhor, mais gostoso. Não acredito em projetos prontos, que saem do nada. É como dar um tiro no escuro. Se o profissional erra, não sabe como consertar.
Acreditando que as pessoas estão cada vez mais introspectivas, voltadas para dentro de suas casas, querendo curtir seus espaços, Brunelli diz que essa mudança de atitude, própria dos anos 90, valoriza a orientação profissional do arquiteto. Hoje as casas são como ninhos e os donos precisam se identificar com elas, diz.
Outra característica apontada pelo profissional nessa época é que as pessoas hoje sabem mais o valor do dinheiro, não saem por aí gastando à toa. Por isso um projeto de interiores deve ser duradouro e não apenas calcado em cima de modismos. Dinheiro hoje é uma coisa difícil de conseguir. Não faz sentido o cliente voltar depois de cinco anos pedindo outro projeto. Se isto acontecer, é porque ele não gostou do que havia sido feito, conclui.


