Entre as lembranças que a fisioterapeuta e fotógrafa Maria Rosália Lopes de Almeida e Toledo, 27, guarda da mãe já falecida, está o hábito de celebrar a passagem do ano perto do mar. Umbandista há cinco anos, ela se programa para conseguir cumprir os próprios rituais de Ano Novo no litoral.
Na bagagem, Rosália leva oferendas para Iemanjá. Nos pensamentos, carrega a intenção de agradecer pelas coisas boas que aconteceram e desejar dias ainda melhores no ano que começa. ''Se não consigo ir à praia, fico ansiosa'', diz ela, que sente alívio e relaxamento quando toma banhos de mar.
O ritual não tem muitas regras. No ano passado, por exemplo, ela levou o nome dos amigos entre as oferendas e pediu para todos serem abençoados. Esse ano, escolheu um lindo colar para ser entregue à orixá. ''O importante é acreditar'', afirma.
Também adepta dos ensinamentos da Umbanda, mas com fortes ligações com o cristianismo, em sintonia com o sincretismo religioso que marca a cultura brasileira, a benzedeira Maria Aparecida da Fonseca Chimitt, 67 anos, ensina que o melhor caminho para garantir um bom ano é ''se pegar com Deus'' através das orações. Para potencializar as boas intenções, entretanto, Dona Cida - como é conhecida - ensina simpatias e mandingas. Uma dica é o banho com 21 folhas de louro, que traz sorte e dinheiro para quem acredita. ''Tem que manter a folha guardada no corpo por todo o ano'', orienta.
Ela é quem recebe e leva até a praia as oferendas da comunidade para os santos, normalmente em agradecimento a desejos realizados. ''Tenho duas caixas guardadas'', conta ela, que também é muito solicitada para benzer crianças e adultos com problemas nem sempre solucionados pela Medicina. ''Por isso, faço também a minha própria 'limpeza' no mar. Quem benze pega muito 'carrego''', explica.
A benzedeira é procurada por pessoas com dificuldades de relacionamento, filhos com problemas de drogas e alcoolismo, entre outros exemplos.''Mas o que eu mais gosto é de benzer as crianças.'' Segundo ela, os pequeninos têm o dom de ''ver'' coisas que os adultos não enxergam e acabam ficando assustados, com dificuldades para dormir e agitação anormal. O benzimento e receitas simples, como banhos de hortelã, teriam o poder de tranquilizá-los.
''Tenho o dom de escutar os espíritos desde os 13 anos. Eles me passam os ensinamentos durante a noite. Faço por caridade, não cobro nada para benzer'', diz. A benzedeira presta serviços em uma casa humilde localizada na Vila Nova, onde também lê a sorte em baralho cigano e faz ''limpezas'' para abrir os caminhos na vida de quem a procura. ''Acabo sendo um tipo de psicóloga. Para trabalhar a parte espiritual tem que ter muito amor.''

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