Nos dois lados da moeda
O engenheiro agrônomo aposentado, produtor rural e ex-vereador de Londrina (na gestão 1989-92) Carlos Eikiti Hirooka, 68 anos, viveu os dois lados naquela era de extremos. Na época do golpe, ele servia no Tiro de Guerra local.
"Eu tinha 19 anos. Eu era mais de centro-direita. Sou neto de militar, o meu avô foi capitão no exército japonês. Fui educado nesse 'regime'. Eu era bem 'caxias' no Tiro de Guerra. Quando estourou a revolução, eu, como membro do Tiro de Guerra, me ofereci para ir para a linha de frente. Mas o pessoal do Tiro de Guerra não foi convocado, (foi chamado) apenas para ficar de prontidão. Então, eu preparei minha mochila e me apresentei. Mas o comandante me dispensou porque eu era da banda, era corneteiro", lembra Hirooka.
Ele relata que, para ele, o golpe "foi uma surpresa". "Não acompanhava muito (a situação política), não sentia muito o clima", justifica.
Anos depois, veio uma pequena reviravolta ideológica na vida de Hirooka, quando foi estudar Agronomia no campus de Piracicaba da Universidade de São Paulo (USP). Em 1967, fez um curso pré-vestibular na cidade paulista e no ano seguinte entrou na faculdade.
"Acreditava que o pessoal comunista era do mal. Mas muitos colegas meus militavam na esquerda e eu procurei conhecer melhor, para ter uma opinião. Eu era de uma república com estudantes militantes de esquerda. O líder era o José Graziano da Silva, que foi ministro do Lula (na pasta de Segurança Alimentar e Combate à Fome) e que hoje está na FAO (órgão da Organização das Nações Unidas para as áreas de agricultura e alimentação)", conta, explicando a guinada.
"Participávamos do centro acadêmico. Acordava de madrugada para distribuir panfletos nas empresas e fábricas. O próprio material de panfletagem era feito na república. Ia meio a reboque, mais para me enturmar, não era muito de esquerda", recorda.
A participação de Hirooka na militância contra a ditadura acabou por ali. "Nunca fui preso. Mas talvez eu tenha ficha no Dops por ter morado com aquele pessoal. Vi colegas sendo presos, alguns sumiam e quando voltavam diziam que tinham sido torturados. Quando me formei, voltei imediatamente para Londrina e comecei a trabalhar na minha área", explica. (F.G.)





