No banco dos réus
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
José Marcos Lopes<br>Especial para a Folha 

Curitiba - Quase nove anos após o acidente de trânsito que resultou na morte de duas pessoas, o ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho vai se sentar no banco dos réus a partir de terça-feira (27). Ele responde por duplo homicídio pelas mortes de Gilmar Rafael de Souza Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20, na madrugada do dia 7 de maio de 2009, no bairro Mossunguê, em Curitiba. O julgamento está marcado para terça e quarta-feira, no Tribunal do Júri, em Curitiba.
Nos quase nove anos desde o acidente, uma batalha jurídica vem sendo travada nos bastidores. Na semana passada, o ministro Sebastião Reis Junior, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), negou um habeas corpus para que o julgamento fosse suspenso. Até a última sexta-feira (23), a defesa de Carli Filho ainda tentava desaforar o julgamento (mudar o local) e retirá-lo do Tribunal do Júri, ao questionar a imparcialidade dos jurados e alegar que não há condições de segurança. Recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal), mas o pedido foi negado pelo ministro Gilmar Mendes.
O acidente que matou Gilmar Rafael de Souza Yared e Carlos Murilo de Almeida foi perto do cruzamento entre as ruas Ivo Zanlorenzi e Paulo Gorski, depois de Carli Filho, que na época era deputado estadual, jantar com amigos em um restaurante perto da Praça da Espanha, no bairro Batel. Yared e Almeida, que estavam um Honda Fit, morreram na hora. Carli, que dirigia um Passat, ficou cerca de um mês internado e renunciou ao mandato de deputado no dia 28 de maio de 2009. Filho do ex-prefeito de Guarapuava e ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli, ele era filiado ao PSB.
Em agosto de 2009, um laudo do Instituto de Criminalística indicou que o carro do ex-parlamentar estava em velocidade entre 161 e 173 quilômetros por hora no momento da batida. Ele tinha a carteira de habilitação suspensa, com 30 multas, 23 delas por excesso de velocidade. Laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba indicou que Carli Filho tinha um nível de 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue, que caracteriza embriaguez. O laudo foi excluído do processo, pois o sangue teria sido coletado sem o consentimento do ex-deputado. Em maio de 2016, ele confessou, em vídeo publicado no Facebook, que bebeu antes de dirigir.
IMAGENS
Outro fato chamou a atenção no processo: as imagens captadas pelo radar da Prefeitura de Curitiba na Rua Ivo Zanlorenzi e pelas câmeras de prédios da região nunca vieram a público. "Foi algo assustador", define Christiane Yared, mãe de Gilmar Yared. "Naquele dia o deputado não apareceu em nenhuma câmera de Curitiba. A explicação técnica da prefeitura de Curitiba foi que os radares estavam com problemas, só que o mesmo radar multou um jovem dez minutos antes do acidente. E os síndicos dos prédios disseram que tinham apagado as imagens."
Para Christiane Yared, o sumiço das imagens levanta a suspeita de um "racha" - e que o objetivo foi proteger o ocupante do outro veículo. "A única imagem que nos foi entregue foi de um posto de gasolina, e mesmo assim adulterada em um segundo e meio", afirma. "Porteiros comentaram que ouviram barulho de racha. Fomos em todos os lugares possíveis e ouvimos que era para focarmos no caso Carli Filho, e não em um possível racha."
O advogado Elias Mattar Assad, assistente da acusação, define o processo como uma "Monalisa", tal a quantidade de elementos clássicos de uma ação penal envolvendo crimes de trânsito. "Esse processo é um pós-doutorado em Direito Penal e Processo Penal. Tem todos os recursos do Código de Processo Penal Brasileiro e dos regimentos internos dos tribunais", comenta Assad. "Tem de tudo: condutor com quase 130 pontos na carteira, 90% deles por excesso de velocidade, confissão do acusado de que bebera antes do desastre e perícia dando conta de uma velocidade entre 161 e 173 quilômetros por hora."
A reportagem entrou em contato com o escritório do advogado Roberto Brzezinski Neto, defensor de Carli Filho, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Defesa tentará culpar motorista do outro carro
A defesa do ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho tentará convencer os jurados de que Gilmar de Souza Yared não respeitou a preferencial no cruzamento entre as ruas Ivo Zanlorenzi e Paulo Gorski. Gilmar dirigia um Honda Fit no momento do acidente em que morreram ele e Carlos Murilo de Almeida. O carro foi atingido pelo Passat de Carli Filho. Outro ponto que deve ser explorado pela defesa é que a mãe de Gilmar, Christiane Yared, foi eleita deputada federal depois do acidente, em 2014, com a maior votação do Paraná - o que traria um clima de "parcialidade" e "insegurança" para o julgamento.
O promotor Paulo Markorwicz de Lima, do Ministério Público do Paraná, contesta a versão de que o erro foi cometido pelo condutor do Honda Fit. "As vítimas pararam no cruzamento e adentraram na Ivo Zanlorenzi. Mas (o carro de Carli Filho) estava em tal velocidade que as vítimas não viram a aproximação dele", afirma. "Os danos dos carros falam por si. Houve a decapitação de uma das vítimas, uma testemunha diz que viu o assoalho do carro do deputado, que bateu na parte superior do Honda Fit. E houve a assunção dele (Carli Filho) que bebeu antes do acidente. Atribuir a culpa às vítimas é uma profanação à memória delas."
Acusação e defesa terão cinco testemunhas cada. Entre as testemunhas da acusação estão um garçom que serviu Carli Filho na noite do acidente, um amigo do ex-deputado que esteve com ele antes da colisão e uma pessoa que viu o desastre. Christiane Yared, mãe de Gilmar Yared, também é testemunha. O juiz será Daniel Ribeiro Surdi de Avelar.
Para Paulo Markorwicz de Lima, até o último momento existe a chance de o julgamento ser adiado. "Esse júri sofre um encantamento, no sentido de que a qualquer momento, num passe de mágica, ele pode não sair. A probabilidade de o júri não sair infelizmente existe, o que é lamentável, porque foi adiado várias vezes", comenta. "É um direito da defesa, mas a família (das vítimas) também está no seu direito e quer que ele se realize."
O advogado Elias Mattar Assad, assistente da acusação, chegou a falar em "abuso de direito" por parte da defesa de Carli Filho. "É um direito da defesa, está na lei, mas usaram todos os recursos que se possa imaginar", avalia. "Alegam que Curitiba não tem condições de imparcialidade nem de segurança para julgar essa causa. Nunca vi na história do Paraná desaforarem um júri da capital para o interior. Seria a primeira vez."
Carli Filho responde por duplo homicídio simples com dolo eventual. Se for condenado pode receber uma pena de entre 6 e 20 anos de prisão. Como mais de uma pessoa morreu, a pena pode ser aumentada em 50%. O escritório do advogado Roberto Brzezinski Neto, defensor de Carli Filho, não retornou o contato da reportagem para comentar o caso. (J.M.L.)
Folha levantou histórico de deputados multados
Em maio de 2009, matéria publicada pela Folha de Londrina mostrou que, dos 54 deputados estaduais do Paraná, 18 estavam com a carteira nacional de habilitação (CNH) suspensa. Sete deles estavam proibidos de dirigir e outros 11 haviam sido notificados da suspensão do documento, mas tinham prazo para recorrer ou já tinham recorrido. Luiz Fernando Ribas Carli Filho era o segundo com a maior pontuação na CNH: 125 pontos. As informações foram obtidas junto ao Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR). Foram consultados os históricos de multas de 38 dos 54 deputados e de um ex-deputado. Na época, não foi possível realizar o levantamento sobre infrações dos outros 16 parlamentares.
'O que queremos é que haja Justiça', diz Christiane Yared
A mãe de Gilmar Rafael de Souza Yared, Christiane Yared, avalia que o julgamento do ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho será um "divisor de águas" na história da Justiça brasileira em relação a crimes de trânsito. "Normalmente, famílias com poder financeiro e político não pagam por seus erros. O que queremos é que haja Justiça, que a verdade venha à tona e que a Justiça esclareça se foi um mero acidente ou um crime de trânsito."

Christiane diz que, na época da morte do filho, achou que o processo andaria rapidamente. "Eu tinha certeza de que dentro de um ano, no máximo, já teríamos a resposta da Justiça. Entraram (a defesa de Carli Filho) com 34 recursos, uma coisa absurda. Chega a ser uma afronta à Justiça brasileira. Que a Justiça nos traga uma resposta. Não é para mim nem para a Vera (mãe do outro jovem morto, Carlos Murilo de Almeida), é para a sociedade. A Justiça é para os vivos."
Na madrugada de 7 de maio de 2009, Christiane foi avisada por agentes funerários de que seu filho havia morrido em um acidente de trânsito. "O caixão do meu filho veio lacrado, porque ele foi cortado na altura dos ombros. Pedaços da cabeça dele foram encontrados a 40 metros de distância do carro. A Vera (mãe da outra vítima) recebeu o corpo do filho dela no dia do aniversário", recorda. "E tenho ouvido da parte da defesa do Carli Filho de que ele não saiu com a intenção de matar. Meu filho também não saiu com a intenção de morrer. Meu filho tinha intenção de viver e ser um homem do qual a sociedade pudesse se orgulhar. Já o outro (Carli Filho) era conhecedor das leis e tomou quatro garrafas de vinho antes de dirigir."
Christiane lembra ainda que chegou a encontrar Carli Filho em um voo de Curitiba para Brasília, mas que o ex-parlamentar não a procurou. "Achei que ele viria conversar comigo, mas ele ficou acuado. Ele me reconheceu, inclusive cobriu o rosto com o boné", recorda. "Depois, fez uma declaração em rede social, que estava arrependido, que bebeu antes de dirigir. Se no processo ele acusa o meu filho, então ele não se arrependeu. Quando há um arrependimento, normalmente o ser humano não consegue conter as lágrimas, e faz isso olhando nos olhos."
CRONOLOGIA
7 de maio de 2009
O Passat dirigido pelo deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho, então com 26 anos, bate no Honda Fit que levava Gilmar Carlos de Souza Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20. Yared e Almeida morrem na hora. O acidente, ocorrido de madrugada, foi perto do cruzamento entre as ruas Ivo Zanlorenzi e Paulo Gorski, no bairro Mossunguê, em Curitiba. Carli é internado.
Maio de 2009
Laudo Instituto Médico Legal de Curitiba mostra que Carli Filho tinha 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue, o que indica embriaguez. Ele renuncia ao mandato de deputado estadual.
Agosto de 2009
Carli Filho é indiciado por duplo homicídio com dolo eventual. Laudo do Instituto de Criminalística mostra que ele estava a a uma velocidade entre 161 e 173 quilômetros por hora no momento da colisão.
Setembro de 2009
A denúncia contra Carli Filho é aceita pela Justiça, mas o exame de embriaguez é invalidado, pois o sangue teria sido coletado sem autorização do deputado.
Janeiro de 2011
A Justiça decide que Carli Filho vai a júri popular.
Março de 2013
O Superior Tribunal de Justiça (STF) suspende o júri popular e determina que a Justiça do Paraná reavalie o exame de alcoolemia.
Fevereiro de 2014
A 1ª Câmara do Tribunal Justiça do Paraná decide que o exame que indicava embriaguez não deve constar do processo.
Outubro de 2015
Um novo júri popular é marcado para janeiro de 2016.
Janeiro de 2016
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, suspende o júri popular, segundo ele, para evitar a anulação do processo após o julgamento. O júri é suspenso até o julgamento de todos os recursos na corte.
Maio de 2016
Em vídeo de pouco mais de 3 minutos publicado no Facebook, Carli Filho pede desculpas pelo acidente e admite que bebera antes de dirigir. "Não sou assassino. Errei, sim. Eu bebi e dirigi. Agora estou pronto para encontrar essas famílias e poder pedir perdão", diz.
Novembro de 2017
A 2ª Vara do Tribunal do Júri marca o júri popular de Carli Filho para os dias 27 e 28 de fevereiro de 2018.


