Famílias que vivem na localidade de Sutil, a 30 quilômetros de Ponta Grossa, admitem que se afastaram dos brancos para se proteger do preconceito racial
As 26 famílias de negros descendentes de escravos que moram na localidade de Sutil, a pouco mais de 30 quilômetros do centro de Ponta Grossa, estão cada vez mais isoladas. Como reconhecem, é uma forma de se proteger do preconceito racial, que ainda é grande na região. Mas, ironicamente, os negros também cometem as mesmas atitudes que os afastam do convívio dos brancos.
‘‘Vocês que são clarinhos ficam na cidade de vocês e nós ficamos aqui para não dar confusão’’, disse Laurita, que não quis revelar seu nome completo. A maioria dos moradores se nega a falar com a imprensa. Não entendem o porquê de tantos jornalistas visitando a comunidade. ‘‘Se pelo menos a vida da gente melhorasse’’, reclamau Nelson, que também se recusou a dizer seu sobrenome.
A resistência das famílias em falar com a imprensa se deve, em grande parte, à imposição do líder da comunidade, João Maria Ferreira Pinto. ‘‘A gente não fala para não arrumar confusão com ele’’, conta Ana Rita Andrade da Cruz, 85 anos, mãe de Nelson. Ele nega que exista algum tipo de repressão na comunidade. Diz que não gosta de dar entrevistas ou ser fotografado porque é uma forma dos brancos ridicularizar os negros.
‘‘A gente sai nas fotos e fica parecendo palhaço dos brancos’’, diz amargurado. Ao mesmo tempo, nega suas próprias origens. Ao ser questionado sobre as raças que integram a comunidade, Nelson diz apenas que no local há
‘‘ muito moreninho’’.
João Maria Ferreira Pinto não gosta de expor a comunidade por causa da situação em que se encontram. Os negros do Sutil herdaram mais de 6 mil hectares e hoje são donos de uns poucos quintais, como eles mesmos dizem. Ana Rita, por exemplo, 85 anos, mora numa casa rústica de madeira com três cômodos. As paredes cheias de frestas não deixam Ana Rita sequer imaginar que poderia desfrutar de uma vida diferente.
A herança de 6 mil hectares e rebanho de gado foram deixados por Maria Clara do Nascimento, filha do coronel Manoel Gonçalves Guimarães. Ela foi uma das mais destacadas damas do seu tempo e morreu solteira, em 1854. No seu testamento, determinou que as propriedades passassem a ser das suas escravas Rosa e Firmina. A condição, no entanto, era de que essas terras nunca fossem vendidas para que continuassem a pertencer aos descendentes das duas negras.
O testamento não foi respeitado e hoje as negras da comunidade do Sutil trabalham de doméstica nas casas dos fazendeiros vizinhos ou fazem bordados para uma comunidade russa, também da região. Já os homens trabalham de bóia-fria em terras que já lhes pertenceram.

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