Oficialmente, Foz do Iguaçu e a cidade paraguaia de Puerto Franco (a 10 quilômetros de Foz e criada em 1º de agosto de 1929) foram fundadas praticamente da mesma época. Mas a história da navegação fluvial antecede o ano de 1880, período em que a extração da madeira e da erva mate agitava a região conhecida como ''Tríplice Fronteira''.

Relatos de pai para filho descrevem enormes jangadas, construídas de madeiras nobres como cedro, marfim e ipê. Os troncos eram transportados em grandes carros-de-boi e levados até a margem. As toras eram amarradas, lançadas ao Rio Paraná e rebocadas em direção a Buenos Aires ou Montevidéu.

Na virada do século 20, Puerto Franco era considerado um dos atracadouros mais movimentados da América Latina. Enormes barcos a vapor transitavam pela região, passando também por Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú na Argentina. Até 1930, embarcações traziam turistas e trabalhadores da capital argentina e de cidades do sul do Paraguai. Os visitantes queriam conhecer o agitado porto e as Cataratas, e ainda a casa do cientista suíço Moisés Santiago Bertoni. Ele e Vicente Matiauda, foram os principais fundadores da cidade. A partir de 1939, o primeiro coletivo fluvial começava a circular entre os três países, utilizando os rios Paraná e Iguaçu. A embarcação, movida também a vapor, continua atracada no porto. Pedro Garcete, 57 anos, cuida hoje do que ele chama de ''pedaço da história''.

Com a fundação de Puerto Stroessner (atual Ciudad del Este) em fevereiro de 1957, o movimento aumentou ainda mais. Operários se preparavam para iniciar uma das maiores obras arquitetônicas já projetadas para a região: a Ponte da Amizade. Enquanto limpavam o terreno, ''barcos obreiros'' traziam material. A ligação entre as duas cidades paraguaias eram feitas em kombis. A viagem de apenas sete quilômetros chegava a durar mais de duas horas em dias de chuva. ''Os passageiros, que seguiam como sardinhas enlatadas, desciam para empurrar os veículos para poder chegar ao destino final. Era sacrificado, mas hoje lembramos de tudo com um certo carinho'', lembra Francisco Amarilla, 47 anos, historiador e ambientalista paraguaio.

Barcos da Argentina e Uruguai vinham com encomendas das capitais e também da Europa. A chegada dos navios era motivo de festa para a população. Todos se reuniam no porto para receber os turistas, buscar produtos, vender lanches e artesanato. A pequena sede mandida pelos correios em Franco, continua em pé até hoje. Naquela época, filas eram formadas para retirar as cargas e cartas. Hotéis ''cinco estrelas'' como o Santa Luzia e o Três Monedas, construídos em madeira, ficavam lotados.

Em 1972, um grande acontecimento: a inauguração do sistema de energia elétrica. Foi no dia primeiro de agosto daquele ano. A população local e de cidades da região se reuniu em uma cerimônia que marcou a história da cidade e trouxe grande avanço para o porto, já que o trabalho dos estivadores passou a se estender noite adentro. Ainda na década de 70, houve a chamada ''Época do Ouro Branco'', uma alusão ao tráfico de farinha de trigo argentina. ''Pessoas ficaram ricas fazendo o contrabando para o Paraguai e também para o Brasil em pequenos barcos, garantindo o sustento dos moradores ribeirinhos. Hoje, o pó branco é outro, rende mais dinheiro e é altamente perigoso'', brincou Amarilla, referindo-se ao narcotráfico.

Com o nascimento do comércio em Ciudad del Este, o movimento de Puerto Franco foi definhando. Em 1983, o porto foi fechado, direcionando o trânsito fronteiriço para a Ponte da Amizade. Mas para os antigos estivadores, o sonho ainda não morreu. Edufigis Zarate, trabalhou durante 30 anos no conhecido porto. Hoje, aposentado aos 57 anos, ele tem esperança de um dia o local voltar a ser movimentado. ''Ainda mantemos o sindicato com 30 estivadores. Todos esperam pela reabertura dos portos (anunciada pelos governos paraguaio e brasileiro) e também voltar a ganhar 70 mil guaranis (cerca de R$ 40) por dia'', disse Zarate.


Enquanto o movimento não volta, a história fica marcada pelas ''carcaças'' de antigos rebocadores, depositados no fundo do ''Paranazão''. Em época de seca, lembranças enferrujadas surgem do rio, assim como afloram na memória dos moradores da região. A ''arenera'' (transportadora de material de construção utilizado na ponte) é um destes exemplos. Escondido sob as águas há 26 anos, o último dos grandes cargueiros se expõe aos curiosos pescadores. Um marco histórico que representa as tragédias e conquistas dos habitantes da região.

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