'Não existência de saúvas não foi argumento de venda decisivo'


Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

 

O historiador Edson Holtz Leme ressalta que a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) colocava em seus panfletos que os lotes não possuíam saúvas, mas para ele isso não foi um argumento decisivo para atrair compradores.
O historiador Edson Holtz Leme ressalta que a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) colocava em seus panfletos que os lotes não possuíam saúvas, mas para ele isso não foi um argumento decisivo para atrair compradores. | Reprodução/CTNP
 

O historiador Edson Holtz Leme, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), ressalta que a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) colocava em seus panfletos os anúncios dos lotes à venda com a informação de que os lotes não possuíam saúvas, mas para ele isso não foi um argumento decisivo para atrair compradores. “Eu acho que o que atraía os compradores era um conjunto de fatores, e não apenas a questão das saúvas. O fato de aqui possuir terras férteis e de que era uma frente pioneira para a ocupação eram outros argumentos mais fortes. Eu acho que os preços da companhia também eram atrativos, porque inicialmente a companhia, quando ainda possuía capital inglês no início da sua colonização, a ideia era seguir um modelo que ela adotava no Sudão, na África, para grandes plantações de algodão, mas com a crise na Europa, mesmo com a guerra, a CTNP vai mudar isso para essa perspectiva de venda de terras, de pequenas propriedades, e não mais plantação de algodão. Isso coincide com a expansão cafeeira que estava de certa forma represada em São Paulo e Minas Gerais”, apontou.


 “Você podia parcelar preço do lote para comprar. É claro que isso chama mais a atenção para quem é agricultor. E as terras férteis também. A não existência de saúvas, que a CTNP utilizou ausência de saúvas como argumento de venda, eles colocavam isso  porque em alguns lugares a saúva fazia grandes estragos na agricultura”, apontou.


“Eu não sou especialista em saúvas, mas sob a perspectiva histórica nós não temos elementos para dizer se havia ou não naquele período, pois não há relatos nas pesquisas que eu li, de pessoas reclamando de saúvas. Pelo contrário, eles só falavam da fertilidade das terras.”


Ele ressaltou que as primeiras plantações dos primeiros colonos possuíam produção muito rica que aliava à qualidade da produção. “Depois começa aquela produção em larga escala de cafeeiros, mas começa a esgotar a terra. Esgotar a terra naquela perspectiva de maltratar a natureza. As pessoas iam avançando. Como o Brasil tinha terra sobrando, a agricultura era derrubar a mata e fazer novas plantações. Somente depois de muitas décadas a Embrapa vai fazer estudos sobre a agricultura e vai evoluir no sentido de fazer a terra descansar por meio da alternância de culturas.” 


 

O historiador Edson Holtz Leme ressalta que a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) colocava em seus panfletos que os lotes não possuíam saúvas, mas para ele isso não foi um argumento decisivo para atrair compradores.
O historiador Edson Holtz Leme ressalta que a CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) colocava em seus panfletos que os lotes não possuíam saúvas, mas para ele isso não foi um argumento decisivo para atrair compradores. | Reprodução/CTNP
 


Sobre a frase do pesquisador naturalista francês Yves Saint-Hilaire, do século 19, de que “Se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil”, Leme afirmou que é preciso entender com relação ao período histórico em que está analisando. “Geralmente o historiador trabalha com isso, mas as pessoas muitas vezes fazem questões para o passado com o olhar do presente. Hoje você tem herbicidas e tem o desenvolvimento da tecnologia para fazer certo controle. Atualmente se utiliza agrotóxicos para acabar com as saúvas, mas elas deixam resíduos tóxicos nas plantas e no solo  para garantir a produção. Para a gente, consumidores, depois a gente vai acabar consumindo produtos com resíduos desses chamados defensivos agrícolas, que na verdade são os agrotóxicos. Mas hoje você tem um uso da universidade e da ciência, que permite a você garantir que certas pragas não proliferem em determinadas plantas. Existem estudos de controle biológico de insetos para evitar isso.”


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