Apatia e conformismo não fazem parte do dia a dia de quatro adolescentes de Londrina e Tamarana. Engajados em movimentos para melhorar as condições das escolas e das comunidades onde vivem, eles também representaram a população de crianças e jovens dos municípios na Conferência Estadual da Criança e do Adolescente, realizada no mês passado em Curitiba. Os estudantes personificam um movimento que começa a ganhar corpo nas discussões das políticas públicas voltadas para esta faixa etária. Cada vez mais, adolescentes do Brasil inteiro se empenham para que tenham voz nas discussões.
Vinícius Marcondes Araújo, de 17 anos, mora na zona urbana de Tamarana, tem pais empresários e contraria todos os estereótipos relacionados ao município, que tem uma grande população rural, uma reserva indígena e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que precisa melhorar. A desigualdade que percebe no entorno da própria realidade motivou Vinícius a se engajar na luta pelos direitos das crianças e adolescentes. "Quero que os adolescentes das comunidades rurais e indígenas também tenham representatividade", diz.
A história do estudante na defesa de direitos humanos começou com a mobilização para criar um grêmio estudantil na escola. Diante da dedicação, foi convidado pelo Conselho Tutelar de Tamarana a representar o município na conferência. "Sou o primeiro representante adolescente da minha cidade a participar do debate. Infelizmente ainda estou sozinho, porque a maioria das pessoas da minha idade não se interessa por estes assuntos", lamenta ele, que critica o comportamento dos adultos em relação às pautas dos jovens. "Somos vistos apenas como futuros adultos, não temos nossas necessidades reconhecidas", aponta Vinícius, que discorda das abordagens que tentam incutir em sua geração a obrigação de ser "alguém na vida" apenas no futuro. "Quero ser encarado como uma pessoa em formação de consciência, capaz de influenciar a sociedade", pede ele, que defende também uma educação mais crítica e menos conteudista.
Não à toa, o adolescente fez vestibular para História. "Quero dar aulas, mas também planejo estudar a história indígena. Não pretendo ficar fechado no mundo acadêmico, acho importante trazer informações úteis para a sociedade", planeja.
Um dos representantes de Londrina na Conferência foi William Pedro da Silva, de 17, selecionado no programa Jovem Aprendiz da Epesmel. Comunicativo, ele conta que o talento para a representatividade deve ter surpreendido muitos professores das escolas por onde passou. Como muitos outros adolescentes, William possui espírito de liderança e, por isso, sempre foi considerado "baderneiro". "Eu identificava coisas que precisavam melhorar, mas não me davam ouvidos porque eu não era 'aluno exemplar'. Então eu mobilizava os bons alunos para reclamar", conta ele, que se indigna principalmente com a intolerância envolvendo diferentes classes sociais.
O adolescente vai terminar o Ensino Médio com uma conquista no currículo. Depois de 15 anos, conseguiu que a escola estadual onde estuda voltasse a ter Grêmio Estudantil. "Vou sair da escola, mas continuarei dando assessoria para os meus colegas", conta ele, que sente-se na obrigação de passar informações a outras pessoas da mesma idade. "Somos adolescentes, mas temos muito a ensinar. Também queremos ser ouvidos", pede.
Diferentemente dos colegas, Anne Caroline Fernandes Ehlke, de 17, descobriu sozinha o caminho para participar da Conferência Estadual. Em dúvida sobre prestar vestibular para Direito ou Jornalismo, ela encontrou na internet o site do Parafuso Educomunicação, que promoveu a cobertura do evento por adolescentes, se inscreveu e foi selecionada. "Era uma oportunidade de conhecer a realidade das duas profissões", revela a moça, que realizou várias ações de mídia e acabou se decidindo pelo Jornalismo.
Sobre a experiência, ela conta que ficou entusiasmada ao descobrir que existem outros adolescentes que, como ela, preocupam-se menos com futilidades e muito mais com a realidade. "Conhecemos adolescentes indígenas, de cidades pequenas, quilombolas... Descobri que é muito mais fácil morar em uma cidade grande e organizada", compara. Com facilidade para se comunicar, ela defende que os jovens precisam ter liberdade de expressão para opinarem nas discussões sobre os próprios direitos.
Veterana na representatividade das crianças e adolescentes, Maria Eduarda Garcia, de 16, participa das conferências desde os 11 anos. A primeira experiência teve o apoio da mãe, que trabalhava como Conselheira Tutelar. "No debate, disseram que criança também tinha que ter voz. Eu adorava falar e me identifiquei", brinca a adolescente, que também integra a Rede Pontes, um projeto de protagonismo juvenil do Estado.
Ela acompanha mensalmente as reuniões do Conselho Estadual da Criança e Adolescente como representante dos mais jovens. "O conselho municipal de Londrina infelizmente não tem uma cadeira para representantes adolescentes", aponta Maria Eduarda, que muitas vezes é incompreendida pelos colegas e professores da escola onde estuda. "Alguns professores reclamam quando eu falto e chegam a dizer que política é perda de tempo", lamenta.
Outra preocupação da estudante é garantir a representatividade das meninas. "Ainda é mais difícil que a gente tenha voz apenas por sermos meninas, isso precisa mudar. Com minhas atitudes, espero influenciar mais pessoas a conhecerem e discutirem nossos direitos", espera.

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