O ganhador do prêmio Nobel da Paz deste ano já tem um vencedor moral. É a Pastoral da Criança, o maior programa não-governamental de combate à mortalidade infantil no Brasil. Sua idealizadora, a médica-sanitarista Zilda Arns, 66 anos, que coordena o trabalho de Curitiba, diz que se a premiação oficial for parar em outro país, tudo bem. O que importa para ela é a projeção mundial alcançada pelo programa. Segundo Zilda, esse triunfo já se equivale ao próprio Nobel.
''Já me sinto premiada pelo fato de tanta gente continuar entrando para trabalhar como voluntária na Pastoral da Criança'', afirma Zilda. Na próxima sexta-feira, dia 12, em Oslo, capital da Noruega, está marcado o anúncio do vencedor. O Brasil nunca recebeu a famosa estatueta e a bagatela de US$ 1 milhão. Esse dinheiro é suficiente para dobrar o número de crianças assistidas. A pastoral atende cerca de 1,5 milhão de menores entre 0 e 6 anos de idade. Nas regiões onde atua, a mortalidade infantil caiu de 34,6 mortes em cada grupo de mil crianças nascidas vivas para 13 óbitos sobre o mesmo número de partos.
No ritmo atual das estatísticas, Zilda Arns estima que 5 mil crianças são salvas da morte por ano no Brasil. Como o trabalho segue uma dinâmica independente nos 11 países em que a pastoral também se faz presente, ainda não há dados sobre os resultados. O atendimento a crianças e gestantes (cerca de 72 mil mulheres no País) é feito por um grupo de voluntários, arregimentados e treinados pelos técnicos da pastoral dentro da comunidade que é alvo da iniciativa. ''Assim conseguimos formar lideranças'', diz Zilda.
Entre os projetos que ficaram famosos pela simplicidade e eficácia, chamando a atenção do mundo, está o soro caseiro que combate a diarréia, noções de aleitamento materno e dicas para enriquecer a alimentação das crianças, com o uso de sobras de comida que formam a 'multi-mistura', cuja finalidade principal é barrar a desnutrição. Mas o retorno dessas receitas caseiras está condicionado ao número de participantes. São cerca de 150 mil voluntários que têm a missão de acompanhar mensalmente 1 milhão de famílias em 3,3 mil municípios brasileiros. No Paraná, a pastoral encontra-se em 358 dos 399 municípios do Estado.
''O voluntariado é capaz de construir uma sociedade mais humana e solidária'', prega Zilda, irmã do arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. A médica diz que é preciso fazer mais e critica a cultura popular de sempre esperar ajuda oficial e vice-versa. ''Creio que o governo, a sociedade e a família, juntos, poderiam ter um melhor empenho. Não dá para as pessoas ficarem esperando que os outros, o governo por exemplo, farão alguma coisa. A comunidade junta age muito mais forte.''
Desde a primeira experiência, no município de Florestóplis (73 km ao norte de Londrina), em 1983, o projeto que nasceu nas fileiras da Igreja Católica tem se pautado pelo ecumenismo. ''A pastoral não tem fronteiras com religiões, partidos políticos e classes sociais.'' As crianças de todos os credos agradecem.

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