Mulheres contam com solidariedade de amigas
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domingo, 15 de novembro de 2015
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
O abandono familiar é um dos dramas mais recorrentes nas penitenciárias e carceragens femininas. Lúcia (nome fictício) lamenta a sorte da nora presa há dez meses e que, neste período, jamais recebeu visitas ou sacolas com alimentos e produtos de higiene de familiares. "Eu não sou parente de fato, por isso não consegui carteirinha para visitar", conta ela, que cuida do filho mais novo, de 5 anos, da detenta. "Só levo o menino para vê-la uma vez por mês."
A parente sente culpa pela nora estar na prisão. Segundo ela, o responsável pela situação foi o próprio filho mais novo de Lúcia, cunhado da detenta, que deixou drogas na casa dela, causando o flagrante. "Testemunhamos a favor dela, mas o juiz achou que meu filho adolescente estava assumindo porque ficaria menos tempo preso. Mas eu sei o filho que tenho, minha nora não tinha qualquer envolvimento", relata, acrescentando que outros dois filhos da detenta estão com parentes maternos e não são levados para ver a mãe. "A família acha que ela é culpada e abandonou. Eles não visitam o neto e não ajudam", lamenta.
O marido da encarcerada também está preso em Londrina. "Eles se casaram quando ele já estava na prisão. Ela cuidava de tudo, levava sacola para ele e, como trabalhava muito, me ajudava com dinheiro. Agora, também fiquei desamparada", revela.
A última notícia que ela teve da nora foi dada por duas outras detentas que saíram da carceragem e, a pedido dela, foram até a casa de Lúcia. "Me disseram que ela está doente, com problemas no estômago e depressão, chegou a ir para o hospital. É uma mulher que trabalhava muito para sustentar três filhos sozinha e foi vítima de uma grande injustiça. Eu não ia acusar meu filho se ele não fosse culpado", reforça a mulher, que vive angustiada depois que a única companheira foi para a prisão. "É uma pessoa maravilhosa, que me ajudava muito e agora está presa, sem advogado e sem receber qualquer condenação. O último advogado que consultei queria R$ 2 mil, não tenho esse dinheiro. Vivo da ajuda do meu filho mais velho", afirma.
Também em Londrina, outra mulher se mobiliza para evitar o aumento de uma crise familiar que se instalou após a prisão de uma mãe. Carla (nome fictício) batalha para conseguir a guarda do filho recém-nascido de uma amiga que foi presa 15 dias após o nascimento do caçula. Mais uma vez, a história remete ao abandono familiar. Como ninguém da família original da presa se interessou pela criança, Carla, que já cuida dos outros dois filhos da mulher cujo marido e pai das crianças também está preso , tenta conseguir a guarda e, assim, levar o bebê para casa.
Ela relata que a mãe foi levada para a prisão junto com o bebê de apenas 15 dias. "A gente sabe que tem o risco de serem levados para Curitiba, onde não vamos poder visitá-la. Nosso maior medo é que o bebê não volte", confidencia ela, que por não ser parente ainda não conseguiu autorização para visitar a amiga. "O que consigo fazer é trazer leite e fraldas", diz.
Na saída da visita no 3º Distrito Policial (DP), que acolhe as presas em Londrina, há apenas poucos homens entre o grupo formado majoritariamente por mulheres. Um deles contou que viaja quinzenalmente de moto por 70 quilômetros para trazer comida e itens de higiene para a irmã. A mulher, segundo ele, trabalhava de mototáxi e acabou flagrada com drogas. Apesar da família garantir que se trata de uma pessoa inocente, não conseguem provar esta versão da história.
"É o pior lugar do mundo", diz ele sobre a carceragem, relatando que a parente reclama muito das condições do local. O homem conta que a irmã é muito vaidosa e sofre com a falta de acesso aos produtos que está acostumada. Além disso, tem se sentido doente, mas não relata aos funcionários da delegacia por temor de ser transferida. "Ir para Curitiba é o maior medo de todas elas", diz.
Entre todos os visitantes da tarde, apenas um homem estava visitando a esposa. Ele contou que inclusive utiliza o espaço para visitas íntimas e, contrariando a tendência, faz questão de ir à delegacia todas as semanas. "Sinto falta dela e quero que seja solta o mais rápido possível, mas não sei a quem recorrer."


